segunda-feira, 21 de maio de 2012

De funcionário em empresa de ônibus à pesquisador de computação matémática

Uma das coisas de que gosto no meu trabalho na Ufal é conhecer pessoas que superaram dificuldades para alcançar um sonho. É assim nessa história. Entrevistei o Antônio Medeiros, conhecido como Tonny, que era funcionário de uma empresa de ônibus, onde fazia a escala dos rodoviários, e agora é bolsista de iniciação científica no Centro de Pesquisas em Matemática Computacional da Ufal.

A matéria abaixo foi publicada no site da Ufal

Antônio Medeiros é aluno do curso de Meteorologia e bolsista de iniciação científica do Centro de Pesquisas em Matemática Computacional (CPMat). O interesse dele em análise   numérica começou por acaso, quando foi contratado por uma empresa de transporte coletivo  urbano para fazer a escala dos rodoviários. “Eu usava as planilhas para distribuir as rotas, de  forma que ninguém fizesse hora-extra ou ficasse com horas ociosas. Na época, eu fazia isso  intuitivamente, mas hoje eu percebi que é um problema computacional dos mais difíceis”,  explica Antônio.

Um amigo que fazia universidade falou sobre o desempenho de Antônio para o professor de Matemática Computacional, Alejandro Frery. “O professor se interessou pelo que eu fazia e fui contratado pelo Laboratório de Computação Científica e Análise Numérica (LaCCAN) com uma bolsa trabalho, o que, de certa forma, mudou minha vida, porque o convívio neste ambiente foi decisivo para acreditar no meu potencial. Quando o professor Alejandro se afastou para fazer o pós-doutorado, ele me indicou para trabalhar no Laboratório de Computação Científica e Visualização (LCCV), com carteira assinada, prestando serviço”, contou Antônio.

O pesquisador tinha parado os estudos em 2004, quando concluiu o ensino médio na rede pública. Depois que foi contratado para trabalhar no LaCCAN e, em seguida, no LCCV, Antônio fez cursinho e se preparou para conquistar uma vaga na universidade. Foi aprovado para o curso de Meteorologia em 2009 e, a partir de 2011, passou a ser bolsista de iniciação científica no Centro de Pesquisas em Matemática Computacional (CPMat). “Pedi demissão no trabalho para me dedicar à pesquisa e aos estudos”, relatou o estudante.

Precisão numérica de software

A maioria dos artigos que Antônio publicou até o momento é sobre a precisão numérica de software. “A pergunta que tentamos responder nesses trabalhos é 'posso acreditar no resultado que o software me fornece?'. Uma forma de responder a pergunta seria saber exatamente como funciona o software, mas em se tratando de programas comerciais, como o Excel, nós não temos essa informação”, explicou o estudante.

“Outra forma, a que adotamos, é colocar dados complexos numericamente e para os quais temos o resultado exato da conta. Para testar se o software é bom para lidar com muitos valores, posso repetir o valor "1" cem milhões de vezes. Eu sei que a média é 1. Qualquer coisa diferente estará errada. É assim que trabalhamos avaliando planilhas (o Excel entre elas) e outras plataformas. Descobrimos que nenhuma planilha é boa para as principais operações básicas”, concluiu o pesquisador.

Segundo Medeiros, os trabalhos nessa linha foram muito bem recebidos nas conferências onde foram apresentados. “Isso nos encorajou a fazer versões mais aprofundadas e detalhadas, e mandamos essas versões para periódicos. Publicamos no Journal of Statistical Software, que é um dos mais importantes indexados da área de estatística computacional, e, mais recentemente, no Computational and Applied Mathematics”, relatou o pesquisador.

Dedicação à pesquisa

Antônio Medeiros fica muito emocionado quando fala de suas conquistas como bolsista de iniciação científica, afinal, foram muitos obstáculos superados para participar da produção acadêmica. “Fico muito orgulhoso por essas publicações, pois sei que ter artigos em periódicos indexados [a indexação é uma referência para outras pesquisas na mesma área é um indicador importante para o pesquisador. Sou um iniciante e acredito que estou no caminho certo, orientado pelas pessoas certas”, comemorou.

O estudante está no sexto período de Meteorologia e pretende continuar os estudos mesmo depois de concluir a graduação. “Gostaria muito de continuar minha formação como pesquisador, e para isso preciso fazer pós-graduação. Já conversei com pessoas da Conae [Comisión Nacional de Actividades Espaciales] da Argentina. Essa agência tem um mestrado internacional onde posso aliar minha formação em Meteorologia com o que venho aprendendo no Laboratório de Computação Científica e Análise Numérica (LaCCAN) sobre computação e processamento de imagens”, destacou.

A partir destes contatos, o pesquisador iniciante desenvolve planos para o futuro. “Tenho ainda que aprimorar o inglês e o espanhol. Para isso estou estudando nas Casas de Cultura da Ufal”, contou ele. “Não sei direito qual vai ser minha linha de pesquisa. Isso é muito dinâmico. No momento estou trabalhando com os professores Alejandro Frery, Eliana Almeida e o pesquisador visitante, Aníbal Rosso, na análise de imagens SAR - Synthetic Aperture Radar [Radar de Abertura Sintética]. Estamos adaptando as ideias do professor Rosso à análise dessas imagens, e já temos resultados muito promissores para discriminar vários tipos de alvos em imagens de SAR que eram invisíveis às técnicas clássicas”, relatou Antônio Medeiros.

Com esta trajetória de superação e dedicação à pesquisa, Antônio Medeiros já conseguiu incentivar colegas a avaliar o ensino superior como uma meta possível de ser alcançada. “Quando você precisa trabalhar muito para pagar as contas, a rotina esmaga alguns projetos maiores, mas eu tive a chance de ver que é possível cursar a universidade e produzir ciência, mesmo tendo que preencher as lacunas de um ensino médio deficiente. Agora, o meu sonho é voltar ao LaCCAN como doutor pesquisador produtivo”, conclui o estudante.