segunda-feira, 24 de julho de 2017

Sobre o 17 de julho

O dia 17 de julho de 1997 ficará marcado na História de Alagoas como a data em que uma revolta de policiais militares e civis, com apoio popular, provocou a renúncia do então governador Divaldo Suruagy.

Como militante dos movimentos sociais e como repórter da TV Alagoas, eu acompanhei o desenrolar da crise que gerou a revolta. Contei um pouco dessa história ao jornal A Verdade. Leia aqui 


domingo, 2 de julho de 2017

Reflexões sobre o perdão…

Enquanto eu o ajudava a tomar um iogurte, colocando cada colherada na boca dele, com cuidado, acompanhando ele sorver cada bocado com dificuldade, eu pensava: esse homem frágil, de cabelos brancos, acamado há mais de um ano, praticamente cego, mas ainda lúcido, embora falando com esforço, é o mesmo que há quatro décadas eu olhava com medo.

Ele parecia alto, forte, feroz, sempre comandando, empurrando as coisas, esmurrando a mesa, atirando a esmo… eu me escondia atrás da porta e ficava quieta, até a tempestade passar e reinar o silêncio… então eu o  via acordar para um novo dia e tomar um gole de cachaça antes do café da manhã e cismava: quanto tempo até começar tudo de novo? Mas nessa época, eu também o amava e vivia ansiando pelo sorriso dele.

Então eu fui entrando na adolescência e o medo foi virando raiva. Eu desafiava, questionava, encarava. Uma vez cheguei a empurrá-lo e ele desequilibrou e caiu no chão, atônito com a minha reação inesperada. Eu estava sempre disposta a manter os pés firmes e a dizer chega! Eu não queria mais ceder espaço. Eu virei uma criatura zangada. Mas nessa época, eu também o adorava. Ele me ensinou a dirigir, a lutar, a encarar a vida chamando os medos para a briga!

Até o dia em que eu atingi a maioridade e foi melhor sair de casa, amadurecer mais rápido, garantir por mim mesma o meu sustento, a minha segurança e tudo o que eu pudesse conquistar. Fui tropeçando por aí, cometendo muitos erros. Mas foi também nessa época que eu vivi as mais incríveis e lindas aventuras e amei a vida com o peito aberto… Ele tinha me ensinado a não recuar e a não ter medo de nada. “Segure a sua viola”, era o que ele mais repetia para mim. E eu provei para mim mesma que eu era capaz de segurar.

Então, naquele momento em que eu limpava a boca dele e dava um pouco d’água, eu pensei como a tirania é frágil, como os que nos metem medo são também feitos de carne e osso que definha, como qualquer pessoa. Pensei como é libertador enfrentar, buscar coragem dentro de si, pegar as rédeas da vida com a própria mão e ir em frente.

Mas, sabe o que é ainda mais libertador do que isso? Ver tudo mudando. Ficar tudo da mesma altura, sentir a própria força e a do outro. Ser tratada com respeito, porque agora ele sabe do que sou capaz. O melhor de tudo foi vê-lo esquecer os tragos, deixar vir as lágrimas e pedir perdão. E ainda melhor é que isso aconteceu num momento em que eu era capaz de plenamente perdoar, porque já conhecia a minha força e nenhum medo, rancor ou mágoa ficou guardado.

O melhor de tudo é que houve tempo para o abraço, o carinho, os risos, o afago que aquece a alma. Houve tempo para pedir ajuda, conselho, para ser filha…

Agora está tudo em paz, de verdade… tudo em paz… mas eu só quero um pouco mais de tempo. Só um pouco mais… Um tempo para segurar tua mão e te convidar para o aniversário do meu filho… Mas, seja lá como for, nós tivemos todo o tempo do mundo e eu agradeço!



sexta-feira, 20 de março de 2015

A melhor notícia da minha vida!

Eu vou contar de novo! Eu não canso mesmo de contar essa história...

Na madrugada do dia 21 de março de 2006, por volta de 4 horas da madrugada, eu senti uma pressão forte na barriga e quando levantei para ir ao banheiro, a bolsa estourou...

Fiquei calma, a mala já estava pronta, acordei o pai do Ernesto, que na época não sabia dirigir e quis chamar um táxi. Mas eu estava tão tranquila que resolvi ir dirigindo...

A gravidez toda foi muito tranquila. Trabalhei e fiz hidroginátisca até uns quinze dias antes do parto. Dirigi todos os dias e podia dirigir neste também...

Cheguei no hospital Arthur Ramos e liguei para minha médica, dra. Sônia Pantaleão, que sabia do meu desejo de ter um parto normal, apesar dos 39 anos de idade.

Ela chegou logo, ainda bem, porque Ernesto não queria saber de esperar. Mal deu tempo de chegar na sala de parto. Eu olhei o relógio e eram 6 horas. Nada de anestesia. Ernesto não demorou. Às 6h40 ele já estava nos meus braços, mamando...

No outro dia, às 8 h, já estávamos de alta. Coloquei Ernesto no bebê conforto e fomos para casa. Dirigi de volta mais leve, tranquila e feliz como nunca!

De lá para cá, nove anos se passaram. Todos os dias eu agradeci. Todos os dias eu vou continuar agradecendo. Ernesto é um presente de Deus para mim e sem dúvida é a história mais importante da minha vida!


domingo, 30 de novembro de 2014

Uma tranquila e madura despedida

Hoje, com o Wellington Soares (repórter cinematográfico) e o Irineu (motorista e apoio técnico), cumpri minha última pauta na TV Pajuçara. Não é uma despedida simples, porque não estou fechando só os 11 anos nessa emissora, mas os dezoito anos de dedicação diária ao telejornalismo.

São muitas histórias e uma experiência que começou já com muita intensidade, cobrindo casos emblemáticos da história recente de Alagoas, como a morte de PC Farias e Susana Marcolino, a prisão da Gangue Fardada, a CPI do Narcotráfico em Alagoas, o caso Silvio Viana, o caso Ceci Cunha...

Tantas e tantas informações embaralhadas num peito ansioso por ver essa terra de Zumbi dos Palmares aprender a fazer Justiça! Eu nunca fui para a rua com a expectativa de ser neutra e olhar aquilo tudo como se não fizesse parte de mim. Ouvir todos os lados da questão, sim, neutralidade, nunca!

Mas agora, é hora de desenvolver outros projetos. Preciso de tempo! Tempo para cuidar do meu filho, tempo para estudar, tempo para me dedicar à minha carreira de funcionária pública na Ufal, com a mesma paixão e compromisso.

A minha decisão já vem sendo amadurecida nos últimos seis meses. A minha saída se concretiza num período em que os ventos da mudança sopraram no jornalismo alagoano. Vamos então alterar essa rotina!

Desejo sucesso à todos os meus colegas que estão mudando de casa. Sei que vocês também me desejam sorte! Nos encontraremos por aí, na pauta da vida!!!

O vídeo da despedida aqui




quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Debate com candidatos ao Senado na Ufal é cancelado por falta de público



O debate com os candidatos ao Senado organizado pelo DCE da Ufal e pelo Observatório Jurídico acabou não acontecendo porque não havia público. Os dois candidatos que compareceram, Heloísa Helena e Omar Coelho, esperaram por mais de uma hora que os estudantes chegassem, mas como na Tenda Estudantil estavam apenas os representantes das entidades organizadoras e alguns assessores dos candidatos, o evento foi cancelado.

Segundo André Albuquerque, coordenador do Diretório Central dos Estudantes, como o debate com os candidatos ao Governo foi realizado no mesmo horário, na quarta-feira passada, houve dificuldade de conseguir a liberação dos estudantes nas mesmas aulas. "No debate anterior, tivemos a participação de cerca de 250 estudantes, mas como eles teriam que faltar às mesmas aulas essa semana, foi difícil mobilizar", justificou o estudante.

Heloísa Helena, do PSOL, e Omar Coelho, do DEM, conversaram com os organizadores e concluíram que não havia condições de debater. Os candidatos lamentaram, por considerar que o debate é um momento importante para esclarecer propostas e ouvir sugestões e críticas, principalmente com um público que apresenta um nível de conscientização e inserção social característico dos estudantes universitários.

Outro debate está marcado para o dia 19 no campus Arapiraca

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Movimento Abrace a Vila tem participação ativa da comunidade universitária da Ufal


O movimento surgiu há mais de dois meses para resistir à sentença judicial de remoção dos pescadores da vila do Jaraguá mas a luta é antiga*



As manifestações culturais e de protesto que procuraram chamar a atenção da sociedade para os vários aspectos relacionados à decisão judicial de remover as famílias de pescadores do Jaraguá, surtiram efeito. No dia 4 de setembro, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região, em Recife, concedeu efeito suspensivo da liminar onde o Município solicitava a expulsão da comunidade tradicional antes do processo ser julgado. A notícia foi recebida com alívio pelos pescadores e comemorada pelo Movimento Abrace a Vila.


Vários integrantes do movimento Abrace a Vila são professores e estudantes da Ufal. Parmênides Justino Pereira, professor de Ciências Sociais do polo de Palmeira dos Índios, e Marcos Ribeiro Mesquista, professor de Psicologia do campus Maceió, estão entre os defensores da permanência dos pescadores na vila do Jaraguá. Eles fazem questão de ressaltar que os pescadores resistem há décadas às tentativas de retirá-los daquele local.

O Abrace a Vila é uma articulação de movimentos sociais e culturais que apoiam a mobilização dos pescadores para ficarem na vila do Jaraguá. O movimento propõe que a área seja urbanizada, garantindo moradia digna, saneamento básico e fornecimento de energia e água regularizados. Embora o Movimento tenha surgido há pouco mais de dois meses, depois da sentença do juiz substituto Aloysio Cavalcanti, da 13º Vara da Justiça Federal, para a desocupação da área.

Mas o relacionamento de integrantes da Ufal com a Vila dos Pescadores do Jaraguá é bem mais antigo. "A vila é campo de estudo, de ações de extensão e de ativismo social há muito tempo. Vários professores e alunos desenvolveram estudos, projetos, pesquisas tendo como foco a vida daquelas famílias de pescadores. Eu, inclusive, elaborei a minha dissertação de mestrado sobre a resistência dos pescadores, e agora estou trabalhando na tese de doutorado sobre o mesmo tema", relata Parmênides.

O professor Marcos Ribeiro também destaca as atividades realizadas por ele e a professora Simone Huning na Vila dos Pescadores, há bastante tempo. "Não é uma relação que começou agora e que tenha qualquer interesse político imediato. É uma convivência íntima com essa comunidade. Desenvolvemos projetos, trocamos experiências e saberes com os moradores há mais de quatro anos. As atividades de Extensão que realizamos são outro exemplo de uma relação de estudos e apoio social e humanitário", revela o professor. Ele ainda destaca a participação da atual vice-reitora, Rachel Rocha, nesse diálogo frequente entre a Vila dos Pescadores e a universidade.

São pescadores, não traficantes

Os professores fazem questão de desmistificar uma das justificativas utilizadas para convencer a sociedade maceioense de que a remoção da vila dos Pescadores também é uma questão de segurança. "Ficam dizendo que lá tem tráfico de drogas e é um local de criminalidade. Nós estamos na comunidade praticamente todos os dias e podemos dizer que encontramos ali pescadores, pessoas que atuam em movimentos culturais e crianças que aprendem a se expressar por meio da arte. A vila tem um ponto de cultura atuante e reconhecido nacionalmente que é o Enseada das Canoas, funcionando na Associação dos Moradores e Amigos da Vila de Pecadores de Jaraguá. Ou seja, essa comunidade tem uma história que precisa ser respeitada", defende Marcos Ribeiro. 

Parmênides ressalta que a própria Polícia Militar reconheceu que não há um nível crítico de violência na comunidade que justifique a remoção das famílias. Para ele, o que acontece é um processo conhecido como "gentrification", uma expressão para identificar a ação do poder econômico quando, para atender à interesses comerciais, altera a vida e o cotidiano de uma comunidade. "É o que estamos vendo aqui, um processo que já aconteceu em várias partes do mundo. Algumas vezes se fala em construir uma marina, outros projetos falam em um grande estacionamento. O que ser quer é 'limpar' aquela área nobre da cidade, promover uma 'higienização', para atender aos interesses econômicos", denuncia o professor. 

Uma história de resistência

Parmênides Justino lembra que já foram feitas várias tentativas de remover a Vila do Pescadores. A luta das 120 famílias que hoje vivem na comunidade é uma herança de várias décadas. Segundo o professor da Ufal, a "favelização" da vila aconteceu no início dos anos 90, no governo Geraldo Bulhões, quando vítimas de uma enchente foram transferidas para a área dos pescadores. "Com o tempo, essas pessoas, que não viviam da pesca, foram se incorporando à vila. Casaram com pescadores, aprenderam a pescar, foram vivendo por ali. Nessa mesma época, o prefeito de Maceió Ronaldo Lessa, iniciou o projeto de revitalização do Jaraguá, tentando tornar o bairro um local de lazer e comércio. A discussão sobre o que fazer com a vila dos Pescadores voltou à tona", relembra Parmênides.

O professor destaca que na gestão municipal de Kátia Born, o conflito pareceu chegar a um termo. "No segundo mandato de Kátia Born, foi apresentado um projeto que foi aceito pelos pescadores. O espaço seria urbanizado, com moradias para as famílias que já viviam ali há décadas e um mercado de peixe bem equipado. Chegaram a vir recursos do Governo Federal, em torno de 7 milhões de reais, a União cedeu a área, os laudos de impacto ambiental foram favoráveis, mas nada foi feito. Na gestão seguinte, do prefeito Cícero Almeida, o projeto de vila dos Pescadores foi substituído pela proposta de construir uma luxuosa marina que só iria beneficiar uma elite de proprietários de lanchas e iates", protesta Parmênides.

O projeto da gestão atual, do prefeito Rui Palmeira,  prevê a construção de um estacionamento de 1.900 m² , de três estaleiros, uma fábrica de peixes e um espaço cultural. Parte das famílias já foram removidas, ainda no final da gestão de Cícero Almeida, em maio de 2012, para o residencial Vila dos Pescadores, com 75 blocos, totalizando 450 moradias. Os pescadores que resistem no Jaraguá reclamam que o conjunto fica distante, a 3 km de onde ficam os barcos, já que eles não podem fundear as embarcações na praia do Sobral, onde o mar é agitado, preferindo deixá-los na enseada, junto ao porto.

Por outro lado, a prefeitura afirma que precisa executar projeto de reurbanização, que, segundo os gestores, vai contemplar o turismo, o lazer e a estrutura de trabalho para todos que vivem da pesca, para o qual estão destinados R$ 24 milhões do governo federal. "Mas nós acreditamos que, se houver diálogo e respeito às famílias dos pescadores, será possível reajustar o projeto, para que sejam construídos os equipamentos e as moradias no mesmo local", defendem os professores.

O professor da Ufal informa ainda que o movimento Abrace a Vila vai protocolar denúncia na ONU. "A intervenção urbana está violando convenções internacionais das quais o Brasil é signatário, como a convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), além de outras violações de direitos constitucionais, acrescendo-se inadequações a diretrizes dos órgão públicos, como a do projeto ao Fundo  Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS), cuja prioridade é a regularização fundiária e a urbanização in loco, tendo a remoção como alternativa apenas em alguns casos. Acrescente-se a isso, que a autorização da Secretaria do Patrimônio da União para a Prefeitura é precária, portanto deixa dúvidas sobre o real domínio da Prefeitura sobre seu poder de intervenção no local", questiona Parmênides.

Um movimento em rede

A luta de resistência dos pescadores e dos movimentos que os apoiam se dá em várias frentes. Existe uma mobilização cultural, com participação de artistas, grupos musicais e de teatro que estão sempre presentes quando a Vila precisa. Também estão juntos nessa articulação, alguns antropólogos, historiadores, sociólogos, psicólogos, advogados, arquitetos e outros especialistas da Ufal, que buscam contribuir com embasamento teórico, rebatendo as teses que justificam a retirada das famílias. O movimento estudantil também está presente, com toda a criatividade e entusiasmo que são características dos jovens.

Como não podia deixar de ser, na atualidade, o movimento ultrapassou os limites da cidade e ganhou repercussão nas redes sociais. No twitter, no facebook e em outras redes, a hastag  #abraceavila está se multiplicando. Também há uma petição publica circulando na internet com o título "Prefeitura de Maceió: Nós pedimos que incluam a moradia dos pescadores em seu local original".

O tema também foi debatido durante o II Congresso Acadêmico Integrado de Inovação e Tecnologia (CAIITE), realizado de 18 a 23 de agosto, no Centro de Convenções. Foram quatro mesas redondas, entre elas, uma com o tema "Dimensões psicossociais e sustentabilidade: implicações predatórias do turismo sobre comunidades tradicionais", teve como debatedoras as professoras Adélia Souto e Marluce Cavalcante.
Segundo os professores da Ufal que participam do movimento, além da defesa da permanência da vila do Jaraguá, o Abrace a Vila suscita uma reflexão mais ampla sobre a participação da sociedade no planejamento urbano. Como expressou a professora Simone Huning, do curso de Psicologia da Ufal, "fazendo o povo pensar a cidade a partir do caso da Vila dos Pescadores do Jaraguá".

(*) esse texto foi publicado no site da Ufal. Foi atualizado para incluir uma nova informação
Para assinar a petição, acesse

Abrace a Vila no Facebook 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Uma carta para a Carol



Hoje eu fui à agência dos Correios postar uma carta para minha sobrinha de 15 anos, que mora na mesma cidade que eu, tem whatsapp, email, instagram e facebook. Nós nos comunicamos instantaneamente sempre que queremos. Mas a Carol contou para a mãe dela que queria sentir essa emoção, do século passado, de ver o carteiro chegar trazendo cartas pessoais e não apenas contas à pagar.

Enquanto ia com uma carta na mão para os Correios, um filme passou na minha mente. Lembrei de quantas vezes, antes dessa era digital, eu escrevi cartas para meus amigos e como gostava de redigi-las, com letra caprichada e alguns enfeites. Recordei do estilo de cartas que recebia de cada pessoa querida, alguns bem diferentes. Celso, por exemplo, uma vez escreveu para mim uma carta em espiral. Deve ter dado trabalho para escrever. Eu tive que girar o papel várias vezes para ler. 

Pensei também nos trabalhos escolares e da faculdade. Quando eu comecei a escrever, não existiam computadores, pelo menos que eu tivesse ouvido falar. Eram equipamentos de filmes de ficção. Dava muito trabalho traçar cada letra num caderno, com caligrafia bonita, parecida com as escritas das cartilhas. Errar era complicado. Mesmo apagando com a borracha, ficava a marca do erro no papel.  

Escrever de caneta, então, era tenso! Eu não gostava de borrões, por isso, para não ter que passar a limpo várias vezes, eu escrevia mentalmente o texto e só depois passava à etapa cuidadosa de redigir.  Quando eu me tornei uma exímia datilógrafa, com diploma e tudo, ficava fascinada com o som do teclado. Mas o medo de errar continuava. Já pensou ter que refazer toda uma página por causa de uma letra em falso? 

Aí, chegaram os computadores e o editor de texto. Que revolução para os meus pensamentos confusos. Dá para começar de qualquer parte. Não é preciso seguir um roteiro. Posso começar pelo meio, refazer o final e deletar.  Essa parte de deletar é ótima. Você pode fazer sumir, sem deixar rastro, as ideias de que se arrepende. Na vida não é assim, tudo deixa marcas, mesmo que você tente ignorá-las. 

Apesar das tecnologias disponíveis e da possibilidade de editar e reeditar os pensamentos, é bom relembrar o costume antigo de escrever uma carta, original, única, retrato de um momento que não pode ser refeito. Está no correio. Possivelmente falo por telefone com a Carol antes de a carta chegar. Mas já estou ansiosa pela resposta...