domingo, 16 de setembro de 2012

Emancipação de Alagoas: a separação de Pernambuco a construção de uma identidade alagoana


Neste domingo, 16, a emancipação de Alagoas completa 195 anos. O desmembramento do território alagoano da capitânia de Pernambuco aconteceu num período em que o movimento contra a coroa Portuguesa se fortalecia em algumas regiões do país. Apesar de encontrar adeptos em Alagoas, a insurreição contra a monarquia foi "abafada" na Comarca, o que levou historiadores, a exemplo de Francisco Augusto Pereira da Costa, a defenderem a tese de que a emancipação foi concedida em recompensa por Alagoas não ter aderido ao movimento republicado, mantendo-se fiel à Portugal.

Seis décadas depois, Alagoas acabou tendo uma participação destacada na construção da República Brasileira. O proclamador do novo regime, Foi justamente o alagoano, Marechal Deodoro da Fonseca, e o primeiro presidente do Brasil, outro alagoano, Floriano Peixoto. Desta forma, é preciso refletir qual o lugar de Alagoas na história do Brasil? Por que, com uma cultura tão rica, ainda estamos construindo uma identidade alagoana? E por que esse Estado tão promissor, declamado no hino como a "estrela radiosa", ainda hoje concentra índices tão negativos em termos de desenvolvimento social?

Para nos ajudar a pensar sobre os questionamentos que cercam essa importante data histórica, buscamos a ajuda do historiador Antonio Filipe Pereira Caetano, professor Adjunto do departamento de História da Ufal e coordenador do Grupo de Estudos América Colonial. Confira a seguir as reflexões do historiador sobre a Emancipação Política de Alagoas.


Em que contexto se deu a emancipação política de Alagoas? Essa "liberdade" foi mesmo um prêmio da coroa porque Alagoas resistiu aos levantes contra a dominação portuguesa?

Filipe - A emancipação política de Alagoas insere-se nos episódios conectados a Insurreição Pernambucana, em 1817. Movimento este que "conspirava" contra o governo português e chegou a instaurar um governo provisório na sede da Capitania (Recife). Influenciada pelos ideais resgatados da Conjuração Baiana e Inconfidência Mineira, os "pernambucanos" sentiam-se preteridos pelas mudanças impostas pela família real portuguesa que muito mais beneficiava o Rio de Janeiro (sede da corte) do que as outras capitanias. Visto por alguns historiadores com cunho liberal, o movimento tentou se espalhar pelas demais localidades da Capitania, inclusive a Comarca das Alagoas. Com adesão em parte do território Alagoano, o movimento pernambucano foi sufocado com a intervenção do Ouvidor Batalha, que criava um governo provisório desmembrando o território de Alagoas de Pernambuco. A medida de Batalha foi contemplada com a chancela de D. João VI, em 16 de Setembro de 1817, emancipando de vez o território alagoano de Pernambuco.

Em meu entendimento, a liberdade como "prêmio" desmerece o lugar estratégico que o território alagoano ocupava no imaginário político e de poder da administração portuguesa. Isto porque, acredito no profundo conhecimento da coroa portuguesa do território alagoano e de suas diferenças (políticas, econômicas e sociais) em relação à sede da Capitania. Principalmente, se levarmos em consideração que o pedido de desmembrando não era uma novidade nos bastidores portugueses, já citado e incentivado, inclusive, por membros do Conselho Ultramarino.

Quais as consequências desta emancipação para o nosso desenvolvimento social e político?

Filipe - A Emancipação inaugura um novo território administrativo no cenário colonial. Enquanto ligado à Portugal (até 1822), a emancipação trazia uma aliado político nas lutas complicadas de manutenção do governo português na América, situação que estava cada vez mais complicada de se manter. Após a independência brasileira, em 1822, a Província das Alagoas é uma das poucas localidades que reconhece a soberania de D. Pedro I de maneira rápida e imediata. Todavia, acredito que 1817 representa a consolidação de uma "identidade" alagoana, construída ao longo de quase um século a partir da criação da Comarca (1712), possibilitando a demarcação das diferenças culturais e sociais entre Alagoas e Pernambuco.

O que é importante hoje refletir quando pensamos na História de Alagoas?

Filipe - Acredito que a principal reflexão que deve ser feita é: o que é o território alagoano no cenário nacional e de que forma o processo histórico de sua formação contribuiu ou contribui para a manutenção ou alteração dessa imagem?

Sem dúvida, historicamente, o passado alagoano é marcado pelos engenhos de açúcar, pelas lutas dos quilombos, pelos massacres dos caetés e pelos comportamentos "traíras" de Calabar e da "elite alagoana" em 1817. Imagens e histórias contadas e (re)contadas por curiosos, historiadores e livros didáticos. Mas, por outro lado, a questão mais interessante é: até que ponto o passado alagoano se ressume a isso? Ou seja, de que forma Alagoas contribui para a formação cultural nacional? Como o território alicerçou forças políticas brasílicas? Qual o lugar da produção econômica alagoana na tessitura nacional?

E falando de hoje, que herança é essa que nos leva a concentrar os piores indicadores sociais e de violência do país?

Filipe - Acho cruel pensar no passado escravista, monocultor e latifundiário como o único responsável pela mazelas sociais e índices de violência no país e no território alagoano. Sem dúvida alguma, estes são elementos que criaram uma base, um sistema e um mecanismo de controle difícil de se romper. Mas, ao mesmo tempo, o presente com suas contingências e vicissitudes e modelos preestabelecidos demonstram claramente a quem interessa a manutenção da pobreza, do aceleramento das desigualdades sociais e da incidência de atos de violências em áreas específicas do território nacional e local. Só assim para explicar como países que tiveram "heranças" tão similares a nossa possuem, na atualidade, índices baixos de violência e um grande desenvolvimento social. Logo, a raiz de muitas mazelas sociais alagoanas remetem a 1817 não pelo passado colonial mas sim pelos agentes políticos que direcionaram a economia, fundaram ideologias, moldaram comportamentos sociais e restringiram o acesso a "emancipação" de camadas "menores" da população.

Professor, pode ficar à vontade para refletir sobre outras questões que os alagoanos precisam conhecer sobre a história e precisam refletir nos dias atuais...

Filipe - O mais importante ao se refletir sobre a história de Alagoas, em meu entendimento, é privilegiar o que há de particular, específico e peculiar no território alagoano e sua interface com o regional (Pernambuco/Nordeste), nacional e, até mesmo, internacional. Pensar a História de Alagoas aprisionada a Pernambuco não ajuda a compreender a formação de um povo, de uma Comarca, de um Província ou de um Estado da Federação. Questões como a história das irmandades religiosas, da própria escravidão em Alagoas (estudo deveras atrasado em comparação com outros Estados), de suas atividades econômicas e sua inserção no cenário nacional, dos conflitos sociais para além dos quilombos, da constituição dos grupos populares, da formação da cultura local e, o mais importante, da identidade alagoana ainda estão esperando curiosos, pesquisadores e historiadores para serem feitos.

Bibliografia Recomendada:

CAETANO, Antonio Filipe Pereira (Org.). Alagoas e o Império Colonial Português: Ensaios sobre Poder e Administração. Maceió: Cepal, 2010.

LINDOSO, Dirceu. Interpretação da Província. Maceió: Maceió/São Paulo: Catavento, 2000.

SANT’ANA, Moacir Medeiros de (org.) Documentos para a história da independência. Recife: Comissão executiva dos festejos do sesquicentenário da Independência do Brasil/IHGAL, 1972. 



segunda-feira, 21 de maio de 2012

De funcionário em empresa de ônibus à pesquisador de computação matémática

Uma das coisas de que gosto no meu trabalho na Ufal é conhecer pessoas que superaram dificuldades para alcançar um sonho. É assim nessa história. Entrevistei o Antônio Medeiros, conhecido como Tonny, que era funcionário de uma empresa de ônibus, onde fazia a escala dos rodoviários, e agora é bolsista de iniciação científica no Centro de Pesquisas em Matemática Computacional da Ufal.

A matéria abaixo foi publicada no site da Ufal

Antônio Medeiros é aluno do curso de Meteorologia e bolsista de iniciação científica do Centro de Pesquisas em Matemática Computacional (CPMat). O interesse dele em análise   numérica começou por acaso, quando foi contratado por uma empresa de transporte coletivo  urbano para fazer a escala dos rodoviários. “Eu usava as planilhas para distribuir as rotas, de  forma que ninguém fizesse hora-extra ou ficasse com horas ociosas. Na época, eu fazia isso  intuitivamente, mas hoje eu percebi que é um problema computacional dos mais difíceis”,  explica Antônio.

Um amigo que fazia universidade falou sobre o desempenho de Antônio para o professor de Matemática Computacional, Alejandro Frery. “O professor se interessou pelo que eu fazia e fui contratado pelo Laboratório de Computação Científica e Análise Numérica (LaCCAN) com uma bolsa trabalho, o que, de certa forma, mudou minha vida, porque o convívio neste ambiente foi decisivo para acreditar no meu potencial. Quando o professor Alejandro se afastou para fazer o pós-doutorado, ele me indicou para trabalhar no Laboratório de Computação Científica e Visualização (LCCV), com carteira assinada, prestando serviço”, contou Antônio.

O pesquisador tinha parado os estudos em 2004, quando concluiu o ensino médio na rede pública. Depois que foi contratado para trabalhar no LaCCAN e, em seguida, no LCCV, Antônio fez cursinho e se preparou para conquistar uma vaga na universidade. Foi aprovado para o curso de Meteorologia em 2009 e, a partir de 2011, passou a ser bolsista de iniciação científica no Centro de Pesquisas em Matemática Computacional (CPMat). “Pedi demissão no trabalho para me dedicar à pesquisa e aos estudos”, relatou o estudante.

Precisão numérica de software

A maioria dos artigos que Antônio publicou até o momento é sobre a precisão numérica de software. “A pergunta que tentamos responder nesses trabalhos é 'posso acreditar no resultado que o software me fornece?'. Uma forma de responder a pergunta seria saber exatamente como funciona o software, mas em se tratando de programas comerciais, como o Excel, nós não temos essa informação”, explicou o estudante.

“Outra forma, a que adotamos, é colocar dados complexos numericamente e para os quais temos o resultado exato da conta. Para testar se o software é bom para lidar com muitos valores, posso repetir o valor "1" cem milhões de vezes. Eu sei que a média é 1. Qualquer coisa diferente estará errada. É assim que trabalhamos avaliando planilhas (o Excel entre elas) e outras plataformas. Descobrimos que nenhuma planilha é boa para as principais operações básicas”, concluiu o pesquisador.

Segundo Medeiros, os trabalhos nessa linha foram muito bem recebidos nas conferências onde foram apresentados. “Isso nos encorajou a fazer versões mais aprofundadas e detalhadas, e mandamos essas versões para periódicos. Publicamos no Journal of Statistical Software, que é um dos mais importantes indexados da área de estatística computacional, e, mais recentemente, no Computational and Applied Mathematics”, relatou o pesquisador.

Dedicação à pesquisa

Antônio Medeiros fica muito emocionado quando fala de suas conquistas como bolsista de iniciação científica, afinal, foram muitos obstáculos superados para participar da produção acadêmica. “Fico muito orgulhoso por essas publicações, pois sei que ter artigos em periódicos indexados [a indexação é uma referência para outras pesquisas na mesma área é um indicador importante para o pesquisador. Sou um iniciante e acredito que estou no caminho certo, orientado pelas pessoas certas”, comemorou.

O estudante está no sexto período de Meteorologia e pretende continuar os estudos mesmo depois de concluir a graduação. “Gostaria muito de continuar minha formação como pesquisador, e para isso preciso fazer pós-graduação. Já conversei com pessoas da Conae [Comisión Nacional de Actividades Espaciales] da Argentina. Essa agência tem um mestrado internacional onde posso aliar minha formação em Meteorologia com o que venho aprendendo no Laboratório de Computação Científica e Análise Numérica (LaCCAN) sobre computação e processamento de imagens”, destacou.

A partir destes contatos, o pesquisador iniciante desenvolve planos para o futuro. “Tenho ainda que aprimorar o inglês e o espanhol. Para isso estou estudando nas Casas de Cultura da Ufal”, contou ele. “Não sei direito qual vai ser minha linha de pesquisa. Isso é muito dinâmico. No momento estou trabalhando com os professores Alejandro Frery, Eliana Almeida e o pesquisador visitante, Aníbal Rosso, na análise de imagens SAR - Synthetic Aperture Radar [Radar de Abertura Sintética]. Estamos adaptando as ideias do professor Rosso à análise dessas imagens, e já temos resultados muito promissores para discriminar vários tipos de alvos em imagens de SAR que eram invisíveis às técnicas clássicas”, relatou Antônio Medeiros.

Com esta trajetória de superação e dedicação à pesquisa, Antônio Medeiros já conseguiu incentivar colegas a avaliar o ensino superior como uma meta possível de ser alcançada. “Quando você precisa trabalhar muito para pagar as contas, a rotina esmaga alguns projetos maiores, mas eu tive a chance de ver que é possível cursar a universidade e produzir ciência, mesmo tendo que preencher as lacunas de um ensino médio deficiente. Agora, o meu sonho é voltar ao LaCCAN como doutor pesquisador produtivo”, conclui o estudante.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Yaathe é a única língua indígena que permanece viva no nordeste

O interesse da professora Januacele da Costa (de azul na foto), da Faculdade de Letras da Ufal, começou quando ela ainda era criança. Natural de Águas Belas, Pernambuco, onde fica a aldeia dos Fulni-ô, Januacele presenciava os índios conversando na língua materna. “Mas era uma comunicação cercada de preconceitos. As pessoas da cidade mantinham uma certa distância. Diziam que os 'cabocos' estavam 'cortando língua'”, conta a pesquisadora.

Quando começou o mestrado em Letras, na Universidade Federal de Pernambuco, o interesse da infância se tornou objeto de estudo, abraçado com muita paixão por mais de duas décadas. A dissertação de mestrado foi dedicada ao perfil sociolinguístico dos Fulni-ô e a tese à descrição da língua, o Yaathe. “É um fato extraordinário que, mesmo depois de 300 anos de contato com a colonização branca, com todo o peso das missões católicas e da dominação cultural, os Fulni-ô tenham conseguido manter a língua ancestral viva e funcional, sendo utilizada no dia a dia da comunidade”, diz com entusiasmo a pesquisadora.

Na Ufal, desde 1993, como professora da graduação e pós-graduação em Letras, Januacele já orientou e produziu vários trabalhos científicos sobre a gramática da língua Yaathe, teoria e análise linguística e documentação da língua. Mas toda essa pesquisa é pautada por um grande respeito pela cultura Fulni-ô. “Para eles é uma língua sagrada, que não é ensinada a pessoas de fora da aldeia, por isso, os trabalhos de caráter didático que produzimos ficam na aldeia. O que divulgo são os artigos científicos”, ressalta a linguista.

A pesquisadora relata que, na escola da aldeia, o Yaathe é ensinado com o mesmo status do Português. “Não são palavras isoladas, ensinadas como curiosidade. Os Fulni-ô são bilíngues, pelo menos 90% deles falam fluentemente as duas línguas, o Português e o Yaathe”, destaca Januacele. A língua e os rituais sagrados mantêm a nação unida, com fortes vínculos culturais e tradições que são repassadas para as novas gerações.

Da tribo ao universo acadêmico

Preservar a cultura indígena não significa se manter à margem do conhecimento acadêmico, muito pelo contrário. A comunidade científica demonstra um grande interesse pela forma como os Fulni-ô mantêm com orgulho a sua identidade cultural. As novas gerações de índios também buscam se apropriar das ferramentas científicas que estão ao alcance deles.

É desta forma, com um pé na aldeia e outra na academia, que Fábia Pereira da Silva (de preto na foto acima) se identifica como Fulni-ô e doutoranda em Linguística da Universidade Federal de Alagoas. “Para nós é motivo de muito orgulho preservar a nossa língua sagrada. É uma língua falada internamente pelo meu povo e temos algumas regras para manter o respeito por essa cultura. Por isso, mesmo como objeto de pesquisa científica, temos muito cuidado sobre como divulgar a nossa língua”, conta a estudante do doutorado em Linguística.

O estudo da língua materna já rendeu muitos estudos para Fábia. Desde a graduação, ela já era bolsista de iniciação científica com trabalhos voltados para a língua da sua etnia, pesquisas que renderam dois prêmios de excelência acadêmica. No mestrado, concluído em 2011, ela elaborou um trabalho sobre a sílaba em Yaathe. No doutorado, iniciado este ano, a estudante pretende continuar seus estudos sobre Fonologia da língua. “Meu objetivo é aplicar os conhecimentos adquiridos na sistematização de uma escrita para o Yaathe, que poderá ser usada no ensino da língua nas escolas da aldeia”, informa a estudante Fulni-ô.

Grupo de pesquisa em Fonética e Fonologia

O grupo de pesquisa em Fonética e Fonologia, da Faculdade de Letras (Fale) da Ufal, está registrado no diretório de pesquisas do CNPq desde 2006. O grupo é coordenado pelos professores Januacele Francisca da Costa e Miguel José Alves de Oliveira Junior. Ao todo, são seis professores pesquisadores e mais nove estudantes, entre eles, a estudante indígena Fabia Pereira.

Em 2010, o projeto Documentação da Língua Indígena Brasileira Yaathe (Fulni-ô) foi aprovado pelo CNPq. O objetivo do trabalho científico é compor um banco de dados da língua, com registros variados de palavras, cânticos e outras formas de expressão na aldeia que preservam a fala ancestral. “Na aldeia, existe uma quantidade razoável de material coletado, mas é preciso um trabalho de digitalização e organização para armazenamento, de modo a que esse material possa efetivamente vir a constituir um banco de dados da língua”, relatam os coordenadores da pesquisa.

Apesar de preservada, a língua Yaathe corre o risco de extinção, por isso, uma questão importante deste trabalho, é que toda a documentação conta com a participação dos índios Fulni-ô. “A transcrição e tradução dos dados são feitas com o auxílio dos professores de Yaathe, o que proporcionará uma discussão acerca de um modelo adequado de grafia a ser adotado, com aprovação da comunidade”, destacaram os pesquisadores.

Sobre os Fulni-ô


Segundo o site Culturas Indígenas, Fulni-ô significa "povo que vive ao lado do rio". De acordo com Fábia, na verdade, Fulni-ô significa, literalmente, "povo que tem rio". A aldeia, de 11 mil hectares, se localiza no município de Águas Belas, em Pernambuco, entre o rio Ipanema, a Serra Comunaty e a Serra Preta. Em 2007, a população da tribo era de aproximadamente 4.500 pessoas. De acordo com informações dos pesquisadores, atualmente, a aldeia deve ter cerca de seis mil índios da etnia Fulni-ô.
(foto do site overmundo)

Veja mais no site


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Quebra do Xangô: pesquisadores avaliam a intolerância religiosa

Lenilda Luna - jornalista

Historiadores e cientistas sociais da Universidade Federal de Alagoas se debruçam há muitos anos sobre a questão do preconceito racial e da intolerância religiosa. No centenário do episódio conhecido como o “Quebra do Xangô”, esses pesquisadores retomam fatos históricos e análises da conjuntura política daquele período, buscando entender o contexto social do Quebra e os reflexos na nossa formação cultural.

Esse fato emblemático da história de Alagoas já estimulou a produção de teses de doutorado, documentários e vários artigos acadêmicos, que fomentaram debates dentro da universidade. O principal objetivo desses estudos é avaliar criticamente esses acontecimentos, considerando que os reflexos da intolerância religiosa perduram na atualidade. No centenário do Quebra, apresentamos a avaliação de uma historiadora e uma antropóloga da Ufal, que são estudiosas da cultura afro-brasileira e das manifestações que resistem em Alagoas.

O que foi o Quebra

Foi na noite de 1º de fevereiro de 1912 que o terror se espalhou pelos terreiros de cultos afro-brasileiros em Alagoas. O quebra-quebra foi liderado pela Liga dos Repúblicanos Combatentes, agremiação política que fazia oposição ao governador da época, Euclides Malta. As invasões, espancamentos e prisões aos praticantes de candomblé, umbanda e outros cultos durou até a madrugada de 2 de fevereiro, quando os praticantes homenageiam as entidades de Oxum e Iemanjá.

O Quebra provocou o fechamento de vários terreiros e a dispersão de ialorixás e babalorixás para outros Estados. Os que ficaram aqui, continuaram praticando os cultos em silêncio, sob intensa repressão e medo. Cem anos depois, várias manifestações estão sendo realizadas para protestar contra a discriminação que ainda perdura e exigir liberdade de manifestação cultural e religiosa.

O contexto político

“O episódio que ficou historicamente registrado como 'quebra-quebra dos terreiros' ou simplesmente 'quebra de xangô', revela uma importante face da cultura alagoana que merece registro. Refiro-me aqui à intolerância e ao preconceito históricos que animavam nossa provinciana Maceió em relação a referências religiosas que não fossem as católicas, as oficiais”, pondera a antropóloga e pesquisadora da cultura afro-alagoana, Rachel Rocha, coordenadora do Laboratório da Cidade e do Contemporâneo do Instituto de Ciências Sociais da Ufal.

A antropóloga destaca ainda que é preciso compreender a conjuntura política daquele momento, para contextualizar as razões de um fato histórico de violência injustificada. “Comumente, o episódio é subsumido no contexto político da época, quando se combatia a chamada Oligarquia Malta, que já se encontrava no poder há uma década. Essa faceta da política local retira da sociedade alagoana o que julgo ter sido a maior motivação para a destruição das casas de culto de matriz africana: nossa arrogância cultural para com as referências negras e nossa profunda ignorância sobre a África que habita cada um de nós”, ressalta Rachel Rocha.

Preconceito religioso

Segundo a historiadora Clara Suassuna, diretora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab), o evento em Alagoas influenciou também a formação cultural do estado vizinho. “Há reflexos diretos na história de Pernambuco, pois muitos dos religiosos de matriz africana tiveram como saída, a migração para o Estado vizinho, para não morrerem ou serem privados da liberdade pessoal ou de culto”.

A historiadora destaca ainda que esse assunto foi banido das rodas de conversa por muito tempo. Os jornais chegaram a noticiar o Quebra como uma ação de limpeza. “Esse evento durante muitos anos ficou restrito aos jornais como sendo uma ação para limpar as almas da população das práticas religiosas demoníacas e perigosas para a sociedade”, destaca a diretora do Neab.

Para Clara Suassuna, o mais preocupante é que esses preconceitos perduram em nossa sociedade sem uma discussão profunda para combater práticas discriminatórias presentes no cotidiano acadêmico. “Alguns alunos universitários que ainda têm medo de entrar nos terreiros de Candomblé e Umbanda, quando são chamados para fazerem uma aula de campo. Isso ainda é reflexo da ignorância cultural que se tem e, acredito que é resultado do imaginário coletivo conservador que existe e que o tempo ainda não conseguiu acabar”, destaca.

Para a historiadora, manifestações de desagravo e resgate cultural como as que foram organizadas neste centenário do quebra, tem uma importância fundamental. “Principalmente no âmbito político, pois o debate não pode ficar apenas nos centros acadêmicos e educacionais. O Estado reconheceu seu erro e oficializou o seu perdão e isso é mais um avanço para a comunidade afro-alagoana, porque também não dizer, pernambucana, já que tantos filhos saíram da terra natal" diz ela.

Clara Suassuna ressalta a realidade sócio-cultural dos nossos dias, ainda com profundos reflexos de racismo. "Temos que pensar que o estado de Alagoas é composto por maioria afrodescendete [67% autodeclarados] e essa maioria está abaixo da linha de pobreza (65%) pelos dados do IBGE. São através das medidas afirmativas que vamos mudando, mas o processo é lento e por isso temos que ser atuantes” conclui a historiadora.

" Xangô é pai, Xangô é rei, e quer Justiça!" frase do documentário de Siloé Amorim sobre o Quebra

Informação, Tecnologia e Cultura Digital: As redes sociais no cotidiano

Lenilda Luna - jornalista
Facebook, Orkut, Twitter, Linkedin, blogs... São tantas as ferramentas de relacionamento online que cada vez mais os cientistas se voltam para o estudo sobre as consequências deste fenômeno. Já se fala até em “fadiga virtual”. Mas,  não se pode negar que as redes sociais estão incorporadas ao cotidiano de milhares de pessoas em todo o mundo. Desta forma, as empresas também se dedicam a desenvolver estratégias de interação com os internautas.

Nas universidades, as redes sociais e outras ferramentas da internet também estão cada vez mais presentes no ambiente acadêmico e passam a ser utilizadas como recurso didático. “Não adianta ficar criando resistência. A cultural digital é uma realidade. É preciso desenvolver estratégias produtivas de utilização das redes sociais”, afirma o professor Ronaldo Ferreira de Araújo, vice-coordenador do Curso de Biblioteconomia da Ufal (http://www.ichca.ufal.br/graduacao/biblioteconomia/v1/ ) e mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG.

Ronaldo Ferreira coordena a linha de pesquisa  “Informação, Tecnologia e Cultura Digital” no curso de Biblioteconomia e tem alguns projetos em andamento. “A proposta é desenvolver métodos para avaliar a cultura digital na realidade de Alagoas”, explicou o pesquisador. Um exemplo foi o levantamento que o grupo de pesquisa fez sobre a utilização do twitter pelo setor de turismo gastronômico, na alta temporada de 2010. “Os alunos passaram três meses acompanhando todas as mensagens postadas pelo setor e perceberam que a comunicação ainda não é muito eficiente nem baseada em um planejamento de marketing digital”, revelou o pesquisador.

Os alunos do grupo de pesquisa também acompanharam outras empresas nas redes sociais de Alagoas. “Embora existam algumas iniciativas positivas, percebemos que o marketing digital ainda é pouco valorizado pelas empresas locais”, disse o professor. Segundo ele, não é só nas empresas que a utilização destes recursos ainda é tímida. “Precisamos dar uma outra dinâmica também na própria universidade”, ressalta Ronaldo.

Ativismo digital

Outra realidade pesquisada pelo grupo é a forma como as redes sociais são utilizadas para  mobilizar pessoas. Segundo o professor, sites de relacionamento também são ferramentas para conseguir adeptos para a defesa de propostas, que podem culminar em uma certa organização e mobilização. “O movimento Na Mesma Moeda  é um exemplo. Ano passado, os usuários passaram da ação de 'curtir', 'compartilhar' ou 'retuitar' para uma iniciativa concreta de sair de casa, dirigir o carro até um ponto de concentração e realizar um protesto muito bem organizado pela cidade”, destacou Ronaldo.

O pesquisador ressaltou ainda outros exemplos internacionais, como a grande mobilização virtual em apoio às manifestações populares no Egito e o protesto contra o apedrejamento de uma iraniana acusada de infidelidade. “A internet acaba derrubando distâncias e limites territoriais e culturais”, reflete Ronaldo Ferreira.

Com relação a este ativismos cultural, o professor Ronaldo Ferreira desenvolve um projeto de Extensão intitulado “A identidade afro-alagoana e o ativismo online: (inter)ações do movimento negro de alagoas na web”, que tem como objetivo investigar a apropriação social das tecnologias digitais pelo movimento afroalagoano. “Estamos mapeando movimento afroalagoano na web em ambientes como blogs, microblogs, perfis e comunidades em redes sociais. Queremos promover o diálogo com integrantes destes movimentos sobre as estratégias do ativismo online e estimular a participação coletiva e cidadã pela causa do negro em Alagoas”, ressalta o professor.

Ronaldo Ferreira escreveu um artigo sobre este projeto de Extensão, que foi aprovado para apresentação em uma conferencia internacional, em Recife, no próximo mês de setembro. “Minha apresentação terá como foco a preservação digital da memória dos movimentos sociais na web”, destaca o professor.

Blogueiros

Os blogs merecem uma atenção especial na pesquisa do professor Ronaldo Ferreira de Araújo. O pesquisador inclusive desenvolveu um blog, melhor ferramenta para fomentar a discussão com as pessoas que produzem textos sobre os mais diversos assuntos na internet e compartilham experiências, informações e opiniões. O blog Cibercultura Alagoana é definido como um espaço de discussão sobre Cultura Digital em Alagoas, que reúne iniciativas e práticas em torno da apropriação que a sociedade alagoana faz do digital.

“Eu considero um 'blog de extensão',  pois por meio dele me relaciono com atores envolvidos com a cultura digital no Estado. A partir dos contatos feitos por meio do blog, já organizei duas edições de 'Encontros de Blogueiros de Alagoas',  como projeto de Extensão, apoiado pela Proex”, relata o professor. Neste projeto foram realizados, em 2011, encontros de Blogueiros. Os encontros chamaram a atenção pela representatividade e pela participação ativa de vários blogueiros do Estado, entre eles o que foi realizado em maio, no Espaço Linda Mascarenhas, e outro na Ufal, em junho.

“A noção de uma blogosfera ativa está ligada a capacidade dos blogueiros e blogueiras se articularem em torno de causas sociais comuns, seja o cotidiano do seu município, expondo problemas e valorizando boas práticas, ou sua capacidade conjunta de cobrirem fatos e eventos que envolvem questões específicas como o meio ambiente, saúde, educação dentre outras”, define o professor e blogueiro, Ronaldo Ferreira.

Pela necessidade de compartilhar informações sobre as várias atividades realizadas em ensino, pesquisa e extensão, o professor de Tecnologia da Informação no curso de Biblioteconomia mantem um outro blog.