sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Quebra do Xangô: pesquisadores avaliam a intolerância religiosa

Lenilda Luna - jornalista

Historiadores e cientistas sociais da Universidade Federal de Alagoas se debruçam há muitos anos sobre a questão do preconceito racial e da intolerância religiosa. No centenário do episódio conhecido como o “Quebra do Xangô”, esses pesquisadores retomam fatos históricos e análises da conjuntura política daquele período, buscando entender o contexto social do Quebra e os reflexos na nossa formação cultural.

Esse fato emblemático da história de Alagoas já estimulou a produção de teses de doutorado, documentários e vários artigos acadêmicos, que fomentaram debates dentro da universidade. O principal objetivo desses estudos é avaliar criticamente esses acontecimentos, considerando que os reflexos da intolerância religiosa perduram na atualidade. No centenário do Quebra, apresentamos a avaliação de uma historiadora e uma antropóloga da Ufal, que são estudiosas da cultura afro-brasileira e das manifestações que resistem em Alagoas.

O que foi o Quebra

Foi na noite de 1º de fevereiro de 1912 que o terror se espalhou pelos terreiros de cultos afro-brasileiros em Alagoas. O quebra-quebra foi liderado pela Liga dos Repúblicanos Combatentes, agremiação política que fazia oposição ao governador da época, Euclides Malta. As invasões, espancamentos e prisões aos praticantes de candomblé, umbanda e outros cultos durou até a madrugada de 2 de fevereiro, quando os praticantes homenageiam as entidades de Oxum e Iemanjá.

O Quebra provocou o fechamento de vários terreiros e a dispersão de ialorixás e babalorixás para outros Estados. Os que ficaram aqui, continuaram praticando os cultos em silêncio, sob intensa repressão e medo. Cem anos depois, várias manifestações estão sendo realizadas para protestar contra a discriminação que ainda perdura e exigir liberdade de manifestação cultural e religiosa.

O contexto político

“O episódio que ficou historicamente registrado como 'quebra-quebra dos terreiros' ou simplesmente 'quebra de xangô', revela uma importante face da cultura alagoana que merece registro. Refiro-me aqui à intolerância e ao preconceito históricos que animavam nossa provinciana Maceió em relação a referências religiosas que não fossem as católicas, as oficiais”, pondera a antropóloga e pesquisadora da cultura afro-alagoana, Rachel Rocha, coordenadora do Laboratório da Cidade e do Contemporâneo do Instituto de Ciências Sociais da Ufal.

A antropóloga destaca ainda que é preciso compreender a conjuntura política daquele momento, para contextualizar as razões de um fato histórico de violência injustificada. “Comumente, o episódio é subsumido no contexto político da época, quando se combatia a chamada Oligarquia Malta, que já se encontrava no poder há uma década. Essa faceta da política local retira da sociedade alagoana o que julgo ter sido a maior motivação para a destruição das casas de culto de matriz africana: nossa arrogância cultural para com as referências negras e nossa profunda ignorância sobre a África que habita cada um de nós”, ressalta Rachel Rocha.

Preconceito religioso

Segundo a historiadora Clara Suassuna, diretora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab), o evento em Alagoas influenciou também a formação cultural do estado vizinho. “Há reflexos diretos na história de Pernambuco, pois muitos dos religiosos de matriz africana tiveram como saída, a migração para o Estado vizinho, para não morrerem ou serem privados da liberdade pessoal ou de culto”.

A historiadora destaca ainda que esse assunto foi banido das rodas de conversa por muito tempo. Os jornais chegaram a noticiar o Quebra como uma ação de limpeza. “Esse evento durante muitos anos ficou restrito aos jornais como sendo uma ação para limpar as almas da população das práticas religiosas demoníacas e perigosas para a sociedade”, destaca a diretora do Neab.

Para Clara Suassuna, o mais preocupante é que esses preconceitos perduram em nossa sociedade sem uma discussão profunda para combater práticas discriminatórias presentes no cotidiano acadêmico. “Alguns alunos universitários que ainda têm medo de entrar nos terreiros de Candomblé e Umbanda, quando são chamados para fazerem uma aula de campo. Isso ainda é reflexo da ignorância cultural que se tem e, acredito que é resultado do imaginário coletivo conservador que existe e que o tempo ainda não conseguiu acabar”, destaca.

Para a historiadora, manifestações de desagravo e resgate cultural como as que foram organizadas neste centenário do quebra, tem uma importância fundamental. “Principalmente no âmbito político, pois o debate não pode ficar apenas nos centros acadêmicos e educacionais. O Estado reconheceu seu erro e oficializou o seu perdão e isso é mais um avanço para a comunidade afro-alagoana, porque também não dizer, pernambucana, já que tantos filhos saíram da terra natal" diz ela.

Clara Suassuna ressalta a realidade sócio-cultural dos nossos dias, ainda com profundos reflexos de racismo. "Temos que pensar que o estado de Alagoas é composto por maioria afrodescendete [67% autodeclarados] e essa maioria está abaixo da linha de pobreza (65%) pelos dados do IBGE. São através das medidas afirmativas que vamos mudando, mas o processo é lento e por isso temos que ser atuantes” conclui a historiadora.

" Xangô é pai, Xangô é rei, e quer Justiça!" frase do documentário de Siloé Amorim sobre o Quebra

Informação, Tecnologia e Cultura Digital: As redes sociais no cotidiano

Lenilda Luna - jornalista
Facebook, Orkut, Twitter, Linkedin, blogs... São tantas as ferramentas de relacionamento online que cada vez mais os cientistas se voltam para o estudo sobre as consequências deste fenômeno. Já se fala até em “fadiga virtual”. Mas,  não se pode negar que as redes sociais estão incorporadas ao cotidiano de milhares de pessoas em todo o mundo. Desta forma, as empresas também se dedicam a desenvolver estratégias de interação com os internautas.

Nas universidades, as redes sociais e outras ferramentas da internet também estão cada vez mais presentes no ambiente acadêmico e passam a ser utilizadas como recurso didático. “Não adianta ficar criando resistência. A cultural digital é uma realidade. É preciso desenvolver estratégias produtivas de utilização das redes sociais”, afirma o professor Ronaldo Ferreira de Araújo, vice-coordenador do Curso de Biblioteconomia da Ufal (http://www.ichca.ufal.br/graduacao/biblioteconomia/v1/ ) e mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG.

Ronaldo Ferreira coordena a linha de pesquisa  “Informação, Tecnologia e Cultura Digital” no curso de Biblioteconomia e tem alguns projetos em andamento. “A proposta é desenvolver métodos para avaliar a cultura digital na realidade de Alagoas”, explicou o pesquisador. Um exemplo foi o levantamento que o grupo de pesquisa fez sobre a utilização do twitter pelo setor de turismo gastronômico, na alta temporada de 2010. “Os alunos passaram três meses acompanhando todas as mensagens postadas pelo setor e perceberam que a comunicação ainda não é muito eficiente nem baseada em um planejamento de marketing digital”, revelou o pesquisador.

Os alunos do grupo de pesquisa também acompanharam outras empresas nas redes sociais de Alagoas. “Embora existam algumas iniciativas positivas, percebemos que o marketing digital ainda é pouco valorizado pelas empresas locais”, disse o professor. Segundo ele, não é só nas empresas que a utilização destes recursos ainda é tímida. “Precisamos dar uma outra dinâmica também na própria universidade”, ressalta Ronaldo.

Ativismo digital

Outra realidade pesquisada pelo grupo é a forma como as redes sociais são utilizadas para  mobilizar pessoas. Segundo o professor, sites de relacionamento também são ferramentas para conseguir adeptos para a defesa de propostas, que podem culminar em uma certa organização e mobilização. “O movimento Na Mesma Moeda  é um exemplo. Ano passado, os usuários passaram da ação de 'curtir', 'compartilhar' ou 'retuitar' para uma iniciativa concreta de sair de casa, dirigir o carro até um ponto de concentração e realizar um protesto muito bem organizado pela cidade”, destacou Ronaldo.

O pesquisador ressaltou ainda outros exemplos internacionais, como a grande mobilização virtual em apoio às manifestações populares no Egito e o protesto contra o apedrejamento de uma iraniana acusada de infidelidade. “A internet acaba derrubando distâncias e limites territoriais e culturais”, reflete Ronaldo Ferreira.

Com relação a este ativismos cultural, o professor Ronaldo Ferreira desenvolve um projeto de Extensão intitulado “A identidade afro-alagoana e o ativismo online: (inter)ações do movimento negro de alagoas na web”, que tem como objetivo investigar a apropriação social das tecnologias digitais pelo movimento afroalagoano. “Estamos mapeando movimento afroalagoano na web em ambientes como blogs, microblogs, perfis e comunidades em redes sociais. Queremos promover o diálogo com integrantes destes movimentos sobre as estratégias do ativismo online e estimular a participação coletiva e cidadã pela causa do negro em Alagoas”, ressalta o professor.

Ronaldo Ferreira escreveu um artigo sobre este projeto de Extensão, que foi aprovado para apresentação em uma conferencia internacional, em Recife, no próximo mês de setembro. “Minha apresentação terá como foco a preservação digital da memória dos movimentos sociais na web”, destaca o professor.

Blogueiros

Os blogs merecem uma atenção especial na pesquisa do professor Ronaldo Ferreira de Araújo. O pesquisador inclusive desenvolveu um blog, melhor ferramenta para fomentar a discussão com as pessoas que produzem textos sobre os mais diversos assuntos na internet e compartilham experiências, informações e opiniões. O blog Cibercultura Alagoana é definido como um espaço de discussão sobre Cultura Digital em Alagoas, que reúne iniciativas e práticas em torno da apropriação que a sociedade alagoana faz do digital.

“Eu considero um 'blog de extensão',  pois por meio dele me relaciono com atores envolvidos com a cultura digital no Estado. A partir dos contatos feitos por meio do blog, já organizei duas edições de 'Encontros de Blogueiros de Alagoas',  como projeto de Extensão, apoiado pela Proex”, relata o professor. Neste projeto foram realizados, em 2011, encontros de Blogueiros. Os encontros chamaram a atenção pela representatividade e pela participação ativa de vários blogueiros do Estado, entre eles o que foi realizado em maio, no Espaço Linda Mascarenhas, e outro na Ufal, em junho.

“A noção de uma blogosfera ativa está ligada a capacidade dos blogueiros e blogueiras se articularem em torno de causas sociais comuns, seja o cotidiano do seu município, expondo problemas e valorizando boas práticas, ou sua capacidade conjunta de cobrirem fatos e eventos que envolvem questões específicas como o meio ambiente, saúde, educação dentre outras”, define o professor e blogueiro, Ronaldo Ferreira.

Pela necessidade de compartilhar informações sobre as várias atividades realizadas em ensino, pesquisa e extensão, o professor de Tecnologia da Informação no curso de Biblioteconomia mantem um outro blog.