quinta-feira, 29 de abril de 2010

Poeminha tosco para curar uma mágoa

Era uma ferida aberta
disfarçada por um sorriso
Mas quem poderia saber?
E o toque que seria de cura
sem querer magoou mais ainda

Mas tudo cicatriza
meio torto, meio feio, ainda em brasa
Tudo caminha para algum fim
meio tosco, partido, mal colado

Até que um dia
a beleza da vida se revela de novo
numa manhã orvalhada e leve
em que o peito parece não doer mais

No entanto,
até que chegue essa alvorada de alívio
será preciso atravessar
uma longa e silenciosa noite

Não há como fugir
para sarar de verdade
é preciso sentir a dor

imagem tirada do blog

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Mulheres que correm com os lobos...




Estou revisitando este livro de Clarissa Pinkola Estés, que foi lançado em 1992 e eu li a primeira vez dez anos depois, em 2002. Desde então, ele é um companheiro silencioso na estante. Quando eu preciso lembrar algum recado do arquétipo da mulher selvagem eu releio partes...

É um livro bom quando se está vivendo um processo de mudança. As velhas lendas infantis contêm mensagens importantes passadas às gerações, para alertar sobre armadilhas que corremos o risco de cair quando estamos ainda na fase nebulosa de se redescobrir e decidir sobre um novo rumo...

Recados como não se contentar com pouco, ou não tentar colar os cacos de qualquer jeito... "Há algo na alma selvagem que não nos permite sobreviver para sempre com migalhas. Porque na realidade é impossível para uma mulher que luta pela conscientização respirar um pouquinho de ar puro e se contentar com isso só. Lembre-se de quando voce era criança e descobriu que era impossível cometer suicídio prendendo a respiração? Embora voce procure continuar só com um pouquinho de ar ou sem ar nenhum, os seus pulmões parecem gritar, e alguma força impetuosa e imperativa faz com que voce acabe inspirando o máximo de ar possivel. Voce sorve o ar, voce o engole, até voltar a respirar normalmente".

A autora nos lembra que a nossa psique também tem um mecanismo como esses, que nos impulsiona a ir fundo, a querer a vida em plenitude, a querer curar as feridas para caminhar com tranquilidade e alegria... enfim, é preciso não deixar que a rotina nos consuma, para ter forças de buscar a nossa verdade.

sábado, 24 de abril de 2010

Estamos juntos nessa...

Vinte anos se passaram e a saudade volta com uma intensidade como se tivesse sido ontem. Então eu descubro que ela nunca foi embora... Sempre foi um vazio, às vezes mais silencioso, às vezes doloroso como um buraco aberto no peito, sangrando...

Evaldo foi o meu primeiro e grande amor, mas eu nunca disse isso a ele, também, naquele tempo, eu não tinha maturidade para saber, eu só sentia que tudo se iluminava na presença dele, mas como uma adolescente militante de esquerda, achava piegas falar essas coisas...

Tinhamos que falar da revolução, da rebeldia, da coletividade... o amor era um assunto subjetivo demais, nebuloso... eu lembro uma vez que Evaldo veio da Bahia para se reunir comigo sobre os rumos do MCR em Alagoas ( que nunca teve rumo e não passou de um grupelho miúdo de militantes) e colocou em um papel os pontos de pauta. Estavam escritos: organização partidária, célula rural e por último...nós... nós éramos um ponto de pauta...

Tudo bem, nós atropelamos tudo... ele tentou dizer que me amava e eu não entendi, não acreditei. Ele amava tanta gente, amava o mundo... Eu não tinha a menor coragem de dizer que o amava. Parecia possessivo, arrogante... como soa ridículo isso hoje... Hoje eu gritaria EU TE AMO em caixa alta... mas aos 18 anos, eu não sabia fazer isso...

Mas nós andamos tanto juntos, a pé, por esse interior de Alagoas, ou pela Bahia, quilometros andando, conversando, vivendo, enfrentando perigos, sonhando... Tem uma música em especial que me lembra essas caminhadas: "dói de tanto medir a distância, saber que não vou te encontrar além da lembrança..."

Quando ele morreu, aos 28 anos, de um câncer raro no pulmão, no início de 1991, já não éramos mais namorados. Eu tinha desistido de administrar tanto sentimento e tão poucas palavras. Fui eu que disse a ele que seria melhor sermos amigos. Eu namorei outras pessoas, ele namorou também... mas era só nos encontrarmos e eu largava a mão de quem estivesse comigo para correr e abraçá-lo.

Por isso, quando eu fui ao sepultamento, parecia que meu coração estava sendo sepultado junto e aquele peso das palavras não ditas ficaram em mim durante anos... Eu amei outras pessoas, mas esse vazio nunca foi preenchido...

Depois do enterro, a então namorada dele veio falar comigo. Ela me entregou a minha identidade estudantil da Ufal, de 1985, que Evaldo nunca tirou da carteira dele, mesmo com os protestos dela. Eu lembrei do dia em que fizemos a troca dos nossos documentos de estudante, no campus da Ufal, eu fiquei com a dele e ele com a minha... foi uma troca feita em lugar das declarações que não fizemos um ao outro...

Nesses dias em que a saudade voltou tão dolorosa, eu fui atrás de ajuda... temos uma história para resolver e agora sei que isso é possível, e sei também que ele está muito próximo, esperando que eu cresça e seja capaz de superar a dor e a culpa... e sei que podemos nos ajudar e que ainda vamos libertar as palavras trancafiadas. Estamos juntos nessa...

foto 1: a única foto que tenho com Evaldo, assistindo à uma cantoria dos irmãos dele, Dinho e Elder

foto 2: do blog

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O desenvolvimento econômico mudando a paisagem...



Hoje acompanhei a audiência pública para discutir a instalação do Estaleiro Eisa em Coruripe. Mais de duas mil pessoas foram mobilizadas. Gente de vários grupos partidários, organizações sociais e pescadores.


A maioria quer a empresa funcionando na cidade. Todos sabem que isso vai mudar a paisagem daquela região bucólica, mas estão dispostos a enfrentar as consequências.


Vai ser estranho, no horizonte onde só se viam barcos pequenos e jangadas à vela, de repente vislumbrar um enorme navio cargueiro. Mas a necessidade de desenvolvimento econômico fala mais forte. Nessa região de emprego sazonal no corte da cana ou dos desafios da pesca artesanal, as pessoas querem contar com uma mega empresa que vai gerar mais de quatro mil empregos diretos e uns vinte mil empregos indiretos. É muita coisa para uma cidade com poucas opções.


Na verdade, é dificil projetar a dimensão do que vai ser esse estaleiro em Coruripe. Algumas pessoas nem acreditam que isso vai mesmo acontecer. Mas tudo indica que vai mesmo se tornar realidade... Aquela cidade de praias desertas, dunas, pescadores, que nem mesmo tem um grande empreendimento turístico, agora vai fabricar, grandes navios... Dá para visualizar?... Eu só quero ver...


E espero que o controle ambiental seja mesmo efetivo, porque danos vão acontecer, mas é preciso que sejam colocadas em prática as tais políticas de compensação à natureza, que sempre paga o preço mais alto pelo nosso progresso...



foto 1: maquete eletrônica do Eisa Alagoas
foto 2: a bela e bucólica paisagem de Coruripe, foto do site Viagem e Sabor

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Liberdade para os tambores...

Hoje parecia uma tarde perdida no trabalho. Minha primeira pauta caiu. Era sobre um homem que estava denunciando a prisão injusta do irmão dele. Quando eu cheguei lá para apurar, a tal vítima estava cumprindo pena de sete anos pelo assassinato da esposa, conseguiu a liberdade condicional ano passado e simplesmente não compareceu ao fórum nenhuma vez para assinar o livro de controle da Justiça... tinha mais é que ser preso mesmo!

No lugar da pauta frustrada, a produção me mandou entrevistar o comandante do policiamento da capital sobre os assaltos e furtos nos bairros da cidade... um saco, né, porque esse tipo de matéria infelizmente já virou rotina. Quando cheguei ao CPC, encontrei o Betinho, advogado das minorias da OAB. É sempre bom sinal encontrar esse camarada, que conheço desde os tempos em que divulgava os ritmos da cultura afro.

Betinho estava esperando para ser recebido pelo Coronel Mário da Hora, comandante do policiamento da capital, acompanhado por um senhor e uma senhora de cabelos brancos e semblantes tranquilos e por um rapaz que usava lentes de contato azuis.

Fiquei curiosa e perguntei o assunto: garantir a realização de um culto para Ogum, amanhã, dia de São Jorge. E porque a necessidade de pedir ao CPC? Porque  policiais militares de Fernão Velho proibiram Diego e seus seguidores de tocar o tambor. O barulho incomodava aos vizinhos...

Intolerância religiosa sempre rende uma boa história e quando vi que o Diego era o rapaz de lentes de contato azuis, fiquei ainda mais curiosa. Quer dizer que ele já é um babalorixá? O mais novo de Alagoas, com apenas vinte anos, me responderam. Então decidi cobrir o fato e comuniquei à redação.

Alguns detalhes nesta matéria me deixaram muito satisfeita. Um deles foi a entrevista com o Coronel, que fez um discurso em defesa da liberdade de culto religioso e pelo respeito às religiões de matriz africana. Pode parecer a postura básica, mas quem já entrevistou comandantes de policiamento há dez anos, sabe que é uma importante mudança de mentalidade da hierarquia, o que força os comandados pelo menos a ouvir.

Também fiquei feliz com a coragem do jovem babalorixá, que estava nervoso sim, mas defendeu muito bem a sua missão e demonstrou muita seriedade. Sinal de que os rituais se renovam. E por fim, é bom fazer uma matéria que é recebida como uma moção de solidariedade. Quando eu cheguei no pequeno e simples Centro Afro de Fernão Velho, a população das proximidades parou intrigada. Muita gente ali persegue mesmo os praticantes e por isso não entendiam o que a imprensa estava fazendo no local.

Depois de concluir a matéria, fiz questão de abraçar o babalorixá, e as pessoas que estavam com ele, na porta, diante de muitos olhares curiosos e estupefados. Desejei muita paz e coragem para viver a vida como escolheram. Eles estavam felizes e eu também.

Mas preciso confessar que aproveitei para pedir à São Jorge, ou Ogum, que o meu Corinthians arrase no jogo da Libertadores hoje à noite... não custa nada pedir ajuda ao Santo, né?!

Veja a matéria veiculada na TV Pajuçara

terça-feira, 20 de abril de 2010

Um dia longoooo

Um dia longo, muito longo, começa com uma madrugada cheia de sonhos confusos, por causa de recordações remexidas por uma sessão de terapia na noite anterior. Depois, quando o sono começa a encaixar direito, o filho chama às 4h30 e o jeito é sair de vez da cama...

Um dia longo é aquele em que parte de voce está concentrada na rotina e a outra parte segue estranhamente conectada com um mundo invisível, que te envia sensações ainda sem tradução, mas que de alguma forma são familiares...

Um dia longo é aquele que ao invés de ir para casa no final de um dia de muito trabalho, voce resolve dirigir um pouco a esmo e depois perambula perdida em pensamentos, tentando encontrar alguma coisa dentro de si mesma...

E como um dia longo, tinha que terminar de um jeito estranho, voce entra no msn esperando conversar com uma pessoa, que não se conecta, e aparece outra que resolve te contar o que voce foi na vida passada... e aí voce chega à conclusão que é melhor ir para cama, encerrar esse dia esquisito nos braços de Morfeu.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

No escurinho do cinema...


Não fui assistir a Avatar logo quando entrou em cartaz em Maceió, ainda bem, porque ontem tive a oportunidade de ver o filme em 3D, no lançamento da primeira sala de cinema com essa tecnologia aqui na capital alagoana.

Foi incrível ver todas aquelas cores, a floresta, aqueles seres mágicos, se movendo como se pudessem sair da tela a qualquer momento. Realmente, é um recurso que envolve o espectador de uma forma que é impossível não reagir aos movimentos dos personagens...

Sobre o filme, considerei tudo o que disseram sobre ele ( e falaram muito nesse período). Mas, francamente, algumas coisas são bem básicas do cinema americano. É como recontar de várias formas aquele episódio ainda não digerido da história recente dos EUA: a derrota na guerra do Vietnã, na década de 60 do século passado.

Não sei a quantos filmes já assisti, com diferenças, mas o mesmo enredo da grande potência armamentista, derrotada por umas centenas de nativos, armados com a paixão pela terra em que vivem e por uma unidade ideológica que acaba minando a força inimiga.

Outros arquétipos também são encontrados em toda história que fala de uma nação primitiva: sempre tem tambores, religiosidade, uma árvore sagrada, um local para invocar os ancestrais. E são símbolos verdadeiros sim, mas com minha parcela de sangue indígena, eu dúvido que os "caras pálidas", mesmo bem intencionados, possam entender esses ritos como nós os sentimos.

Mesmo assim, adorei o filme... adorei o final em aberto, aliás, com os olhos bem abertos. Não vou entrar em detalhes porque vai que tem mais retardatários que ainda não viram a película... Recomendo, vejam em 3D e deixem as emoções fluirem. É, porque a tecnologia não adianta nada se a sua mente bloqueia essa imersão... Boa parte de todas essas coisas, são recursos da nossa mente, que os computadores ajudam a simular e compartilhar...

No mais, desde os velhos tempos do cinema mudo, a magia da sala escura está em pequenas coisas, muito significativas, como quando alguém especial segura a sua mão na hora da cena mais drámatica ou ter como encostar a cabeça num ombro aconchegante quando a trilha romântica está no ar...

foto: google

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Um final feliz?! Bom, ainda não é o final...

Ontem pela manhã, iniciei o dia de trabalho na assessoria da Ufal triste com a informação de mais um menino desaparecido na capital alagoana. A mãe estava desesperada. Passou a noite sem dormir procurando por Ruan, de 9 anos. Ele saiu de casa, depois de uma discussão em que ela acabou batendo nele.

Essas histórias de mães procurando os filhos sempre me deixam com o coração apertado. Fiquei rezando por um desfecho positivo. Quando cheguei à tarde para trabalhar na TV, fiquei feliz com a informação de que o menino havia sido encontrado e estava voltando para casa.

A imprensa ficou mais de uma hora esperando na porta da casa pelo tão esperado abraço de mãe e filho. Mas, na verdade, a cena não foi tão bonita. O menino estava visivelmente constrangido e assustado. Não quis abraçar a mãe e nem fez cena para os jornalistas. Crianças são bem autênticas. Conversei com a familia depois, sem querer me intrometer demais em detalhes que não são da minha conta...

Mas parece que não era nada grave. Só uma crise, um período tenso, que envolve mudanças e separação dos pais. Ruan estava estressado com tudo isso e, pelo jeito, a mãe também andou perdendo a calma. A relação entre eles estava arranhada, mas nada que não possa ser superado com compreensão e carinho.

Saí de lá pensando como é difícil quando os dramas familiares acabam se tornando públicos por causa de um incidente como uma fuga, uma busca desesperada, que acaba atraindo a atenção da mídia e da sociedade. Separações e conflitos podem acontecer em qualquer lar, no caso do menino, só se tornou um caso de repercussão por causa da busca pelo filho, que mobilizou a polícia, os vizinhos e os jornalistas.

Mas tudo bem! Menos mal que o menino está em casa, bem e em segurança... O resto se resolve! Todos os dias temos que construir nossos finais felizes e eles sempre vem acompanhado de reticências

Foto da gazetaweb: Ruan é abraçado pela mãe e pela tia

terça-feira, 13 de abril de 2010

No subterrâneo mundo de Psique

Ando cumprindo com todas as minhas tarefas diárias: trabalho dez horas por dia, no mínimo, cuido de Ernesto e minha casa está o mais arrumada possível, levando-se em consideração que tenho um furacão de quatro anos dentro de um apartamento de dois quartos.

Mas apesar de externamente a vida andar na rotina, a verdade é que nos últimos dias estou como Psique descendo ao inferno. Um lugar onde é preciso abandonar as esperanças para que as sementes germinem em silêncio, antes de poderem se erguer de novo à luz do sol.

Mas vou logo acalmando aos amigos. Não tem nada a ver com depressão. Depois que eu li "O Demônio do Meio Dia", de Andrew Solomon, há uns sete anos, eu descobri que tenho uma reserva de energia considerável para me manter longe desse estado, mesmo diante dos contratempos da vida. Na época eu era repórter da área policial, trabalhava durante a madrugada, e uma certa "melancolia" me contaminava quase todos os dias... Também, eu via cada cena...

Mas quem me conhece de perto sabe que eu tenho uma grande tendência à alegria, graças a Deus. mesmo assim, é inevitável em algumas fases, descer as escadarias que levam aos nossos sentimentos mais profundos e visitar os monstros, nem tão assustadores assim, que deixamos escondidos nas cavernas do nosso ser. Aliás, com o tempo e a experiência, tenho cada vez menos medo dos meus fantasmas. 

Talvez, por isso, escrevi pouco esses dias. Quando andamos assim, os pensamentos são confusos. Fica-se na espreita, na tentativa de interpretar os sinais mais internos. É difícil explicar essa nebulosidade em palavras. É mais fácil ouvir música e ficar sentada imóvel feito um largato grudado na parede.

Apesar disso tudo, estou fazendo novos amigos e planos para um próximo sábado bem divertido. Então, estou normal...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Há dias ruminando pensamentos...

Estou naquela fase de pensamentos movendo-se silenciosamente lá no fundo do cérebro, sem vontade de vir à tona... enquanto ando nessa lua nova, vou postar emprestado um poema de Neruda que minha amiga Célia enviou, com uma linda ilustração: