domingo, 2 de julho de 2017

Reflexões sobre o perdão…

Enquanto eu o ajudava a tomar um iogurte, colocando cada colherada na boca dele, com cuidado, acompanhando ele sorver cada bocado com dificuldade, eu pensava: esse homem frágil, de cabelos brancos, acamado há mais de um ano, praticamente cego, mas ainda lúcido, embora falando com esforço, é o mesmo que há quatro décadas eu olhava com medo.

Ele parecia alto, forte, feroz, sempre comandando, empurrando as coisas, esmurrando a mesa, atirando a esmo… eu me escondia atrás da porta e ficava quieta, até a tempestade passar e reinar o silêncio… então eu o  via acordar para um novo dia e tomar um gole de cachaça antes do café da manhã e cismava: quanto tempo até começar tudo de novo? Mas nessa época, eu também o amava e vivia ansiando pelo sorriso dele.

Então eu fui entrando na adolescência e o medo foi virando raiva. Eu desafiava, questionava, encarava. Uma vez cheguei a empurrá-lo e ele desequilibrou e caiu no chão, atônito com a minha reação inesperada. Eu estava sempre disposta a manter os pés firmes e a dizer chega! Eu não queria mais ceder espaço. Eu virei uma criatura zangada. Mas nessa época, eu também o adorava. Ele me ensinou a dirigir, a lutar, a encarar a vida chamando os medos para a briga!

Até o dia em que eu atingi a maioridade e foi melhor sair de casa, amadurecer mais rápido, garantir por mim mesma o meu sustento, a minha segurança e tudo o que eu pudesse conquistar. Fui tropeçando por aí, cometendo muitos erros. Mas foi também nessa época que eu vivi as mais incríveis e lindas aventuras e amei a vida com o peito aberto… Ele tinha me ensinado a não recuar e a não ter medo de nada. “Segure a sua viola”, era o que ele mais repetia para mim. E eu provei para mim mesma que eu era capaz de segurar.

Então, naquele momento em que eu limpava a boca dele e dava um pouco d’água, eu pensei como a tirania é frágil, como os que nos metem medo são também feitos de carne e osso que definha, como qualquer pessoa. Pensei como é libertador enfrentar, buscar coragem dentro de si, pegar as rédeas da vida com a própria mão e ir em frente.

Mas, sabe o que é ainda mais libertador do que isso? Ver tudo mudando. Ficar tudo da mesma altura, sentir a própria força e a do outro. Ser tratada com respeito, porque agora ele sabe do que sou capaz. O melhor de tudo foi vê-lo esquecer os tragos, deixar vir as lágrimas e pedir perdão. E ainda melhor é que isso aconteceu num momento em que eu era capaz de plenamente perdoar, porque já conhecia a minha força e nenhum medo, rancor ou mágoa ficou guardado.

O melhor de tudo é que houve tempo para o abraço, o carinho, os risos, o afago que aquece a alma. Houve tempo para pedir ajuda, conselho, para ser filha…

Agora está tudo em paz, de verdade… tudo em paz… mas eu só quero um pouco mais de tempo. Só um pouco mais… Um tempo para segurar tua mão e te convidar para o aniversário do meu filho… Mas, seja lá como for, nós tivemos todo o tempo do mundo e eu agradeço!



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