quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O que se pode saber do imprevisível?...

Alícia se despediu do amado cheia de dúvidas... o coração pesava com uma indefinição angustiante. Mas ela pensou: o que afinal queria saber? Essa história toda já havia começado como um salto no escuro... mania que tinha de buscar certezas onde era impossível...
Cinco dias antes tinha conhecido o rapaz de um jeito inusitado para ela. Aos cinquenta anos, separada, artista plástica de relativo sucesso, estava sozinha na noite de natal e resolveu bater papo na internet. Buscava alguma forma de preencher o vazio daquelas horas, para que o dia chegasse mais depressa, e o silêncio daquela noite não pesasse tanto.
Gostou de um nick e apostou no papo... a conversa fluiu e, como ela queria, o tempo passou... mas o parceiro de conversa quis o msn. E agora? Como ela não frequentava salas de bate-papo, não tinha um email discreto. O seu era o nome próprio, já um pouco conhecido na cidade do interior... mas, ela pensou, "por que não arriscar?"... fazia tempo que não tinha nenhum flerte com ninguém... estava abusada da tranquilidade em que se transformara sua vida.
Passou o contato e a conversa ficou ainda mais animada. Não demorou muito e marcaram um encontro, em um café, para o dia seguinte. Ela se divertiu com a própria atitude destemperada. "Ahh, vai ser só um encontro. Quem sabe um beijo...", pensou Alícia.
Apesar do nervosismo, ela tinha se encorajado com a franqueza dele, que não tinha floreado a própria vida. Falou abertamente dos problemas que estava vivenciando. Enfim, não foi uma conversa de sedutor que quer mascarar a realidade.
Mas durante a noite ela também lembrou de todas as histórias que tinha lido em páginas policiais, onde encontros fortuitos como esse acabavam em tragédia. O mundo está cheio de aproveitadores, estelionatários, etc etc.
"É, mas o mundo também está cheio de gente interessante que a gente só pode conhecer se arriscar um pouco, se estiver disposta a se expor", assim ela concluiu o vai e vem de questionamentos internos, e adormeceu cheia de expectativas...
No dia seguinte, o encontro foi delicioso. A conversa começou tímida e depois deslanchou, se arrastou por horas. Ele era mais jovem, bonito, animado, franco, bastante disposto a falar de si mesmo, o que não é tão comum nos homens. Ela gostou dele de cara. Tinha uma gargalhada tão honesta, que nada nele poderia ser fingimento. Antes da tarde terminar, ele estava se despedindo e ela estava desejando que ele tomasse a iniciativa de propor algo mais ousado.
Ele propôs, certo de que ia receber uma recusa, mas ela não se fez de rogada e a noite foi de carícias e prazeres que há tempos Alícia não sentia. "Que se dane meu bom comportamento", pensou ela. "Eu quero é viver".
O encontro renovou o encantamento de Alícia pela vida. O ano tinha sido voltado apenas para o trabalho, com noites solitárias, preenchidas pela literatura e pelas pinceladas para criar os quadros que a faziam sentir-se produtiva, criativa, viva, mas cada vez mais fechada em seu próprio mundo. Havia um conforto naquele isolamento, uma segurança. mas era também monótono. Nada a ver com os quadros coloridos e cheios de movimento que ela pintava.
Victor Hugo veio quebrar aquele sossego. De repente ela estava de novo com aquela ansiedade adolescente, contando as horas para um próximo encontro. Mas o novo affair tinha seus riscos. Ela tinha mania de se apaixonar e estabelecer compromissos. O seu Victor Hugo era como o escritor frances do século XIX, um homem cheio de amantes e muito disposto a atender a todas elas. Ele não tinha escondido esse lado bon vivant, pelo contrário, a tinha divertido contando as aventuras com as várias mulheres que tinha conhecido pela internet.
Dessa forma, ela sabia no que estava se metendo. Nos três encontros que tiveram, ela sentiu a ternura crescer, a despeito da improvável possibilidade do relacionamento se tornar algo sério. "Mas afinal,  o que diabos é um relacionamento sério", pensava ela. Tinha acabado de sair de um casamento que cumpriu todas as formalidades, e acabou afundando num surto depressivo.
Quando ela fechou a porta, sentiu uma ponta de medo. Não tinha a menor idéia do que iria acontecer naquela história sem roteiro. Mas afastou as preocupações e se entregou a ocupação que lhe animava a alma. Pintou inspirada a tela mais intensa de que se lembrava...

( a foto é de uma escultura de Rodin em homenagem à Victor Hugo)

3 comentários:

  1. ai.. ai.. estas histórias sempre me inspiram... dagamos que me senti uma Alicia da vida agora... espero o proximo post como quem esperao capitulo da proxima novela!
    masé uma pessoa 'multi' mesmo, alem de todas as qualidades aplausíveis, agoraataca de escritora... bjos linda, saudades

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  2. Eu adorei!!! Acho que teve td um charme, td um encantamento e ao msm tempo tem aquele Q de coisa real, que pode acontecer com qualquer um, a qualquer hora.
    Acho que pra quem tá começando.. Já dá pra ir pensando nos concursos literários da vida... =)
    Bjss

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  3. Que bom ler seus textos novamente! Precisamos urgente daquele café! Te amo! Chris

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