sábado, 24 de abril de 2010

Estamos juntos nessa...

Vinte anos se passaram e a saudade volta com uma intensidade como se tivesse sido ontem. Então eu descubro que ela nunca foi embora... Sempre foi um vazio, às vezes mais silencioso, às vezes doloroso como um buraco aberto no peito, sangrando...

Evaldo foi o meu primeiro e grande amor, mas eu nunca disse isso a ele, também, naquele tempo, eu não tinha maturidade para saber, eu só sentia que tudo se iluminava na presença dele, mas como uma adolescente militante de esquerda, achava piegas falar essas coisas...

Tinhamos que falar da revolução, da rebeldia, da coletividade... o amor era um assunto subjetivo demais, nebuloso... eu lembro uma vez que Evaldo veio da Bahia para se reunir comigo sobre os rumos do MCR em Alagoas ( que nunca teve rumo e não passou de um grupelho miúdo de militantes) e colocou em um papel os pontos de pauta. Estavam escritos: organização partidária, célula rural e por último...nós... nós éramos um ponto de pauta...

Tudo bem, nós atropelamos tudo... ele tentou dizer que me amava e eu não entendi, não acreditei. Ele amava tanta gente, amava o mundo... Eu não tinha a menor coragem de dizer que o amava. Parecia possessivo, arrogante... como soa ridículo isso hoje... Hoje eu gritaria EU TE AMO em caixa alta... mas aos 18 anos, eu não sabia fazer isso...

Mas nós andamos tanto juntos, a pé, por esse interior de Alagoas, ou pela Bahia, quilometros andando, conversando, vivendo, enfrentando perigos, sonhando... Tem uma música em especial que me lembra essas caminhadas: "dói de tanto medir a distância, saber que não vou te encontrar além da lembrança..."

Quando ele morreu, aos 28 anos, de um câncer raro no pulmão, no início de 1991, já não éramos mais namorados. Eu tinha desistido de administrar tanto sentimento e tão poucas palavras. Fui eu que disse a ele que seria melhor sermos amigos. Eu namorei outras pessoas, ele namorou também... mas era só nos encontrarmos e eu largava a mão de quem estivesse comigo para correr e abraçá-lo.

Por isso, quando eu fui ao sepultamento, parecia que meu coração estava sendo sepultado junto e aquele peso das palavras não ditas ficaram em mim durante anos... Eu amei outras pessoas, mas esse vazio nunca foi preenchido...

Depois do enterro, a então namorada dele veio falar comigo. Ela me entregou a minha identidade estudantil da Ufal, de 1985, que Evaldo nunca tirou da carteira dele, mesmo com os protestos dela. Eu lembrei do dia em que fizemos a troca dos nossos documentos de estudante, no campus da Ufal, eu fiquei com a dele e ele com a minha... foi uma troca feita em lugar das declarações que não fizemos um ao outro...

Nesses dias em que a saudade voltou tão dolorosa, eu fui atrás de ajuda... temos uma história para resolver e agora sei que isso é possível, e sei também que ele está muito próximo, esperando que eu cresça e seja capaz de superar a dor e a culpa... e sei que podemos nos ajudar e que ainda vamos libertar as palavras trancafiadas. Estamos juntos nessa...

foto 1: a única foto que tenho com Evaldo, assistindo à uma cantoria dos irmãos dele, Dinho e Elder

foto 2: do blog

6 comentários:

  1. Nossa, viajei com seu texto agora. Fiquei comovida. Vou indicar a leitura pros amigos. Bjos

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  2. Sensacional...emocionante e que nos faz refletir tantas coisas...tantos momentos que deixamos passar...Vc está de parabéns...vc não me conhece sou amiga de Mônica..ela me pediu pra dar uma olhada no seu texto..ele me deixou sem palavras...Bjs de Luz

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  3. Mais um lindo post. Me emocionei! lembrei até um pouco de mim agora, embora que de uma outra forma...

    grande bjo

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  4. O texto é de teor emocional altíssimo. Às vezes eu também gostaria de ter uma crença que me libertasse das culpas por coisas não ditas ou ditas fora de um contexto. Nos amores elas devem ser comuns.

    Boa sorte e boa viagem.
    Abraço.

    =***

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  5. O que dizer? Realmente tem coisas que só sabemos sentir.

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  6. Moça de Deus,fiquei muito emocionado com o texto e também aprendir mais um pouco sobre a História de Evaldo.
    abraços Luna.

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