quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Café da manhã com o autor...

Já li vários livros na vida, graças à Deus. Despertei para a leitura cedo e aos sete anos já era assídua frequentadora da biblioteca itinerante do meu bairro, lá em Santos-SP. Antes dos nove anos, devorei todos os livros de Monteiro Lobato que estavam na prateleira. E também fiquei amiga dos irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen e das mil e uma noites da rainha Sherazade.

E segui pela vida afora lendo, sem respeitar muito a faixa etária recomendada. "Eu Christiane F", por exemplo, eu li com a mesma idade da protagonista, 13 anos. Não deveria, porque foi dificil digerir a história de uma menina da minha idade, drogada e prostituida. Mas eu lia o que me despertava curiosidade, e só depois buscava orientação.

Neste mesmo período, li outro livro pouco recomendado para uma adolescente, mas que eu amei, "Papillon", de Henri Charriere, sobre a fuga de um homem de uma prisão perpétua no inferno. Na época, eu também estava me preparando para uma fuga que eu considerava fenomenal, e ele foi minha inspiração. Só o fato de estudar o movimento do mar, para saber o melhor momento de se jogar nas ondas, me serviu como ensinamento para a vida.

Essa leitura de Papillon tem um incidente curioso, espero que não provoque nojo em voces, mas é só para ter uma idéia de que eu não abandonava uma boa leitura por nada! Eu estava lendo, quando a minha mãe avisou que minha irmã estava passando mal e teríamos que levá-la ao médico. Pegamos um táxi, eu, o livro, minha irmã e minha mãe.

No caminho, a Miriam vomitou em tudo, inclusive no Papillon. Eu nem me preocupei com minhas roupas, mas com o livro, fiquei arrasada e chorei um bocado. Já de volta depois do atendimento médico, minha mãe, que nem sabia sobre o que eu estava lendo, teve pena da minha decepção e colocou meu livro no sol para secar. No mesmo dia, eu continuei a história, nas páginas borradas e fedorentas.

Até a adolescência, eu tinha o costume de anotar na minha agenda todos os livros que eu lia durante o ano. Ficava contente de registrar pelo menos três obras por mês. Continuei tendo livros como companheiros durante toda a vida. Alguns simplesmente não desgrudavam de mim. Musashi foi um que eu não larguei nem para aceitar convite dos amigos para sair e relaxar. Os dois volumes escritos por Eiji Yoshikawa, cada um com mais de 900 páginas, me atrairam como um imã.

Tenho vários livros e personagens no meu coração e na minha lembrança e fiquei amiga imaginária dos autores, de quem eu gostava muito, por terem dado vida àquelas pessoas. Mas, hoje foi a primeira vez que eu liguei para um escritor, na hora do café da manhã, com a maior intimidade, para reclamar "por que voce fez isso com ela?!"

E o pobre autor, ainda atordoado pelo sono, a ter que encontrar explicação para o destino de um personagem... Mas, pense bem... é ou não é um privilégio? Aliás, são vários: ler um bom livro, escrito por um amigo, poder ligar para esse autor para se entristecer com um drama imaginário, e, acima de tudo, sentir um grande orgulho pela obra muito bem escrita de uma pessoa da minha convivência.

Sinto-me privilegiada e gostaria muito que talento fosse contagioso...

Ahh, o autor é Carlos Nealdo dos Santos, e o livro: "O Pianista do Silencioso".

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