sábado, 2 de janeiro de 2010

Uma trágica lembrança...

Comecei hoje a ler "De Cuba, com carinho", da blogueira Yoani Sánchez. Ela resolveu retratar no blog Geração Y o cotidiano em Havana de um ponto de vista muito pessoal, e acabou arrumando bastante encrenca, sendo inclusive agredida fisicamente em novembro do ano passado. Mas, como ela mesma escreveu, "Não posso mais vegetar a salvo como tantos outros que alcançaram tão idílico estágio de preservação graças a não pronunciar-se diante de nada".

Lendo as crônicas de Yoani, lembrei das vezes que estive em Cuba, impregnada da visão romântica de militante de esquerda, que sofreu o profundo choque ao confrontar-se com a vida real. Era meados dos anos 90, e Cuba estava no auge da crise provocada pelo bloqueio econômico e pela queda do comunismo de Estado no Leste Europeu. Tudo era racionado, desde a energia elétrica, que era desligada às 22 h, o "apagon", até os alimentos e roupas.

Eu ia para Havana com excesso de bagagem, levando cadernos, lápis e outras contribuições solidárias que Freitas Neto colocava na bagagem de qualquer conhecido de partida com destino à Ilha. Eu também tirava papel higiênico e outros "luxos" como sabonete dos hotéis onde me hospedava, para dar aos amigos cubanos.

Numa das vezes, fiquei hospedada na casa de cubanos. Sem a infraestrutura dos hotéis, senti bem mais de perto as limitações do "período especial". Mas também foi a oportunidade em que mais conheci a rotina dos cubanos. Andei por cidades como Cumanayagua, Campo Florido e outros locais menos frequentados pelos turistas.

Nessa oportunidade, conheci um senhor de cerca de cinquenta anos, mas parecia mais velho. Magro, fumante compulsivo e com olhar triste, morava num quarto em Havana, e tinha participado da Juventude Revolucionária, do período que precedeu a revolução de 1959 até a vitória liderada por Fidel, Che e Camilo Cienfuegos. Este senhor, que não lembro o nome, mas vamos chamar de Luis, tinha conhecido todos bem de perto.

Logo após o triunfo da revolução, Luis, que ainda ia fazer 18 anos, trabalhou como acessorista no elevador do hotel onde funcionava o quartel geral do governo revolucionário. Ele me ofereceu rum e café e contou entusiasmado vários fatos que presenciou. Disse que quando Fidel ficava tenso e começava a andar de um lado para outro, só quem se aproximava dele era o Che, os outros tinham medo de levar uns gritos.

Ouvi extasiada todos aqueles relatos, anotando tudo mentalmente, para registrar no diário de viagem, que infelizmente se extraviou. Não sei onde foram parar aquelas memórias. Mas este senhor me marcou por um relato em particular. Luis era pródigo em falar das histórias "revolucionárias", mas economizava palavras para falar de si mesmo.

Encorajada pela quarta dose de rum, eu perguntei se ele não tinha familia... ele entristeceu mais ainda. Contou que a esposa tinha falecido e que o único filho que tiveram, naquela época com vinte anos, tinha ido pedir asilo na base de Guantánamo, porque sonhava em ir para os Estados Unidos, como aliás, tantos jovens, que na visão de Luis, não souberam valorizar o que a geração dele tinha conquistado com tanta coragem, enfrentanto adversários poderosos.

Luis me contou que não falava com o filho desde então. Recebeu algumas cartas que rasgou, sem ao menos ler. Sem contato com o filho há quase um ano, ele se dividia entre a saudade e o sentimento de traição. Era como se o filho tivesse renegado tudo o que Luis dedicou uma vida a construir. Eu não tive coragem de argumentar. Precisava de mais umas doses de rum para me meter numa história tão pessoal. Mas não consegui dormir, pensado que, se o filho de Luis conseguisse licença para ir aos Estados Unidos, a comunicação entre eles ficaria ainda mais dificil.

No dia seguinte, ainda com essa história na cabeça, pedi aos meus anfitriões para me levarem de novo a casa de Luis. Sentei, ouvi mais relatos, respondi algumas perguntas sobre o Brasil, e quando o rum fez seus efeitos e me deixou mais desinibida, eu pedi licença a Luis para falar sobre o filho dele. Disse o que pensava: eram de gerações diferentes, viveram a revolução de pontos de vistas diferentes. Lutar, para Luis, foi uma escolha. Viver em Cuba, para o filho dele, era uma imposição.

Desandei a me meter na vida familiar de Luis, agora sem freios. Opinei que talvez, quando o filho dele chegasse em Miami, teria elementos para confrontar as duas realidades, e com certeza iria encarar de outra forma as limitações da política e da economia cubana, e valorizar também as conquistas. E disse, sobretudo, que independente do desenrolar dos acontecimentos e das divergências ideológicas, Luis deveria falar com o filho.

Luis me ouviu sem dizer palavra. Tomou mais um gole de rum e ficou em silêncio. Eu também não falei mais nada. Ficamos olhando para o nada, até que meus amigos chamaram para ir embora porque tinha outros lugares e pessoas que eles queriam me apresentar. Fui embora, constrangida pela falta de resposta de Luis, me sentindo um pouca intrusa, mas aliviada por ter dito o que pensava.

E ainda bem que eu falei. Ainda bem que não fiquei com minha opinião guardada no peito por medo de me intrometer na vida alheia. Porque, meses depois, já no Brasil, recebi uma carta de Luis. Ele me agradeceu muito por ter falado o que pensava do rompimento dele com o filho. Depois que eu saí, ele pensou no assunto. No começo, me considerou mesmo uma intrometida. O que eu poderia saber de todo o sangue e suor que eles deram para fazer triunfar a revolução?

Mas depois, com a saudade martelando no peito, Luis resolveu escrever para o filho. Dias depois, segurando a contrariedade, ele foi à Guantânamo e deu um abraço no rapaz. Choraram, se perdoaram, se abraçaram. Luis disse que o gesto de procurar o filho tirou um peso do coração dele. E disse na carta, "ainda bem que segui o seu conselho, porque foi a ultima oportunidade de abraçar meu filho. Logo depois ele conseguiu asilo nos EUA e,  no dia em que chegou em Miami, morreu atropelado em uma daquelas largas avenidas".

Eu li a notícia da morte do filho de Luis perplexa. Não conseguia acreditar. Mas resolvi, de uma vez por todas, que é melhor ser intrusa, quando o coração diz com toda a força que voce precisa se manifestar sobre um assunto, que aparentemente, não é da sua conta.

fotos: na primeira, estou em na Praça José Marti, em Havana. A outra foto é do Google

Um comentário:

  1. Que história!

    Ser intrusa nessa conversa fez um bem danado.
    E ter recebido a carta deve ter te enchido de orgulho, apesar do atropelamento.

    ResponderExcluir