domingo, 3 de janeiro de 2010

Vinte pesos cubanos

A leitura de Yoani estão me fazendo recordar as minhas experiências em Cuba, há quinze anos...
A primeira vez que estive na Ilha, em fevereiro de 1995, fui participar de um Congresso de Pedagogia, com congressistas do mundo inteiro. Acontecia de tudo naquele congresso. Tive a oportunidade de me aproximar dos revolucionários de Chiapas, no México, que são liderados por uma figura mítica chamada subcomandante Marcos, em um painel sobre Educação e Lutas Sociais, onde havia mais palavras de ordem do que debate pedagógico. Mas tudo bem... eu estava deslumbrada com tudo aquilo...



Até porque, tem gente que vai à Roma e não vê o Papa, e tem gente que vai à Cuba e não vê Fidel. Eu vi Fidel há aproximadamente dez metros de distância. Cercado por seguranças, ele chegou no encerramento do Congresso, no Teatro Karl Marx, e sentou para ouvir o discurso do ministro da Educação. Eu fiquei bem quientinha, no escuro, sentada no chão, e consegui filmar Fidel, com uma câmera VHS,  até que ele deu um cochilo no meio do discurso. Isso mesmo, eu flagrei Fidel "pescando" no teatro Karl Marx. Para sorte dele, não posso disponibilizar essas imagens no youtube. O mofo atingiu minha fita VHS e não consegui salvá-la.

Mas não foi só isso que aprontei naqueles dias. Eu consegui entrevistar Teófilo Stevenson, boxeador cubano, campeão dos pesos pesados em três olimpiadas (Munique 1972, Montreal 1976 e Moscou 1980), que é uma lenda na ilha porque foi convidado para morar nos EUA e recusou. O problema é que eu menti, espero que Stevenson não fique sabendo, ele é bastante alto e forte, não o quero com raiva de mim. Eu disse que era jornalista de um grande jornal esportivo no Brasil. Passei uma tarde na casa de Stevenson, com a familia dele. Um local muito simples para um grande campeão que poderia ganhar rios de dinheiro na América do Norte, mas preferiu ficar em sua Ilha.

E não parou por aí o meu comportamento inadequado. Também teve paixão. Eu me apaixonei perdidamente pelo guia de turismo que coordenava um dos grupos de brasileiros no Congresso. Como todas as manhãs, no Hotel El Viejo e El Mar, as pessoas se dividiam em excursões para conhecer diferentes experiências educacionais em Cuba, eu passei a escolher os temas pelo guia. Por exemplo, eu não tinha o menor interesse em conhecer uma fazenda escola para estudantes do pré-universitário. Mas fui, porque Pérez estava guiando o grupo ( esse não é nome real dele, achei melhor usar um pseudônimo).

Não demorou muito e nós estávamos driblando a vigilância cubana para sair do roteiro estabelecido para o Congresso. Pérez fez tudo o que era proibido para um guia: se relacionar com uma turista, levá-la para passear em seu carro particular durante o expediente, frequentar hotéis e restaurantes que naquela época ainda eram vedados para os cubanos e outras ilegalidades que ele já cometia, como trabalhar clandestinamente para ganhar dólares. Naquele período, os cubanos ainda não podiam portar e muito menos negociar com a moeda americana.

Nesse mesmo ano, voltei a Cuba, desta vez para passar um periodo mais longo. Foi nessa viagem que fiz um diário, infelizmente extraviado, e conheci o personagem do meu post anterior. Mas lembrei de um outro incidente muito engraçado, porque os cubanos, apesar da educação materialista, tem uma forte influência da santeria, que é semelhante ao nosso candomblé. Por isso, Pérez ficou tão espantado com o que aconteceu. Eu também fiquei pasma, mas disfarcei, para não perder a oportunidade do encanto.

Foi o seguinte: Pérez era um compulsivo consumidor de populares cubanos. O cigarro sem filtro, vendido nas tiendas para cubanos, onde só se negocia com moeda nacional. Mas ele não tinha pesos, e não conseguiu trocar os doláres no cambio clandestino. Eu pensei em comprar cigarros estrangeiros para ele, mas só serviam os populares.

Foi a primeira vez que o vi irritado, mau humorado, ansioso por uns velhos cigarros sem filtro... quem não é fumante, não entende essa crise de abstinência, mas eu percebi que era melhor não mexer com ele. Entrentando, como eu também não poderia ajudar, e nós estavamos sentados na areia de um praia linda, em Matanzas, ao por do sol, resolvi relaxar e dar um mergulho...

Nadei e nadei, enquanto Pérez ficava emburrado na praia... assisti ao lindo por do sol e depois resolvi sair. Foi quando senti um papel grudando na minha perna. Pensei, "puxa, uma praia tão bonita e limpa, também tem poluição?". Puxei o papel e fiquei estatalada. Eram vinte pesos cubanos, com a cara de Camilo Cienfuegos que tinha acabado de beijar as minhas coxas.


Olhei para todos os lados em busca do dono da cédula, mas na praia, já escurecendo, só estávamos eu e Pérez, ainda paralisado pelo mau-humor. Sem encontrar explicação, resolvi agradecer à sorte que me deu a possibilidade de levar o remédio para o meu querido cubano. Cheguei perto dele e aproximei a nota molhada dizendo "toma, Iemanjá mandou para voce. Vai comprar teus populares".

Não posso descrever o olhar que Pérez lançou para mim. Foi uma mistura de alegria, alívio, espanto, medo. Tudo em um só segundo... Ao que parece, ele acreditou mesmo que eu tinha muita intimidade com Iemanjá. Não fez mais nenhuma pergunta. Correu para comprar os populares, e quando acendeu o primeiro e deu uma tragada salvadora, olhou para mim de novo em silêncio. Até hoje ele deve acreditar que sou uma espécie de "bruja".

Ahhh, e para quem quer saber o final da minha história com Perez, no casamos e eu consegui trazê-lo para o Brasil. Ele começou a trabalhar como guia de turismo e em três meses juntou dinheiro... e foi embora para Miami, de onde, meses mais tarde, me enviou um email pedindo desculpas. Eu já o havia perdoado fazia tempo. Cada um tem que correr atrás de seus sonhos, né?

fotos: na primeira, eu em frente ao Teatro Karl Marx, com a então secretária municipal de Educação. Na foto seguinte, encostada ao lada de Pérez, na Baía dos Porcos. A foto da cédula me foi enviada por Morales

6 comentários:

  1. Que coisa! Sempre achei que a vida de todo mundo daria uma novela das oito, mas a sua emplacaria ainda um “vale a pena ver de novo”. Quando for relembrar: blogue. Suas histórias são boas de ler.

    Abraço.
    Isolda.

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  2. E como são boas!! Adorei essa! E se puder contar mais coisas de Cuba eu adoraria saber... A gente lê tanta coisa no jornal que acha que só pode acreditar em quem realmente passou uma temporada lá...
    Bjss

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  3. Olá gostei muito da sua história por isso peço que autorize a posta-la no nosso blog www.soalagoas.blogspot.com aguardo contato e fique a vontade para fazermos uma parceria das suas publicações em nossas páginas.

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  4. entre na seção fale conosco e mande seus recados http://SOALAGOAS.BLOGSPOT.COM

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  5. Luna...estive em Cuba participando desse mesmo Congresso, só que em 2005. O encerramento foi no mesmo teatro, o Karl Marx e estive também bem perto do Fidel. Pude inclusive tirar muitas fotografias. Só que ele não dormiu não: pelo contrário. Falou por 4 horas seguidas no encerramento do Congresso!

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  6. Teatro Karl Marx... bem apropriado.

    E eu já conhecia a história dos 20 pesos :)

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